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100 anos da Semana de Arte Moderna: por que a efeméride gera polêmica?

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04/04/2022 18h38

Por Maurício Soares Filho, professor do Anglo Vestibulares

Em função do aniversário de 100 anos do evento que movimentou a cena artístico-intelectual em 1922, muito tem se discutido a respeito do real significado de celebrar o encontro em São Paulo de artistas patrocinados pela aristocracia da época. A questão que coloca em dúvida a importância do movimento se refere especialmente à representatividade de uma mostra que pretendia discutir a identidade brasileira na arte, mas que, na prática, foi idealizada e realizada por intelectuais que defendiam apenas uma visão elitista e paulista da cultura nacional.

Partamos do princípio, então, que os três dias que ocuparam o Teatro Municipal de São Paulo em fevereiro de 1922 tiveram uma modesta repercussão na imprensa nacional, ainda que tenham sido muito noticiados na cidade. Lembremos também do preço elevado cobrado para as récitas e a consequente elitização do público presente. Assumamos ainda que o discurso que defendia a democratização das expressões artísticas, com a "contribuição milionária de todos os erros" baseada na "língua certa do povo", não contava com a participação de nenhum artista popular.

Outro aspecto negativo que paira sobre o acontecimento, gerando polêmica, é a presença mínima das mulheres e a ausência completa de negros entre os que ditavam os novos paradigmas da moderna arte brasileira. Mais do que isso, a apropriação do discurso de defesa do nacionalismo crítico daqueles artistas pela postura do governo desenvolvimentista em 1952 e pelo autoritarismo da ditadura civil militar em 1972: "Brasil: ame-o ou deixe-o". É claro que, vivendo em tempo de tentativas frequentes de minorizar maiorias como as mulheres (que representam 51,8% da população brasileira em 2020) e os negros (54%), é mesmo fundamental que se desenvolva uma militância crítica em relação a determinadas atitudes, mas, ainda assim, tais deslizes nas opções dos participantes da S.A.M. não são suficientes para desqualificar o evento em si e, menos ainda, todo o processo de reflexão a respeito na arte no Brasil desencadeado pelo evento de São Paulo.

A obra e o pensamento de Oswald e Mário de Andrade, em toda sua abrangência temática e estética, alcançaram, ao longo do século XX, repercussões e desdobramentos atualmente incorporados na identidade artística nacional. Mário manteve-se no trabalho de "atualização da inteligência artística" e foi o pai de um dos personagens mais emblemáticos na representação do brasileiro: Macunaíma, protagonista de seu romance homônimo, publicado em 1928. Sobre a S.A.M., Mário reconheceu em 1942, em conferência sobre os 20 anos do evento, a postura alienada de seus participantes em relação às questões políticas e sociais do período.

Oswald morreu no ostracismo, em 1954. Ser um artista muito à frente de seu tempo cobrou seu quinhão do irreverente modernista. A primeira montagem de seu texto O rei da vela, pelas mãos do diretor José Celso Martinez Corrêa no Teatro Oficina em 1967, inspirou artistas como Caetano Veloso e Gilberto Gil no desenvolvimento da Tropicália, que propôs novidades que transformariam para sempre a música popular brasileira. Somos todos herdeiros de Oswald, que está mais vivo e presente do que nunca nesta celebração dos 100 anos do marco inicial do nosso modernismo.

A importância da Semana tão discutida hoje não é passível de redução aos encontros, desentendimentos e curiosidades que muitas vezes embaçam o significado amplo e complexo daqueles três dias de fevereiro de 1922. Não é, tampouco, o conjunto de obras expostas no saguão do teatro naquelas noites representativo de todo o pensamento que ganhava espaço na intensa sociedade paulistana do período. Não há polêmica quanto a isso. Os pensadores de 22 plantaram, em São Paulo, uma semente que faz de todos nós um século depois, em qualquer canto do Brasil, representantes da multiplicidade cultural do país.

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O Dicas de Vestibular é produzido e atualizado pelos professores do Anglo Vestibulares e do Sistema Anglo de Ensino.

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