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Existe Algum Monumento Que Deva Ser Eterno?

Dicas de Vestibular

17/07/2020 14h37

Por Raphael Tim, professor do Anglo Vestibulares

Em 2016, quando estudantes exigiram a retirada da estátua de Mahatma Gandhi da Universidade de Acra (Gana), o gesto surpreendeu quem considerava o líder indiano apenas um ícone da paz. A surpresa diminuiu conforme houve uma maior visibilidade às posturas racistas que Gandhi adotou por décadas (destacadamente às pessoas africanas), e a estátua foi removida em 2018.

As exigências pela retirada de monumentos que celebram personagens cuja história foi erguida à custa de sofrimento não começaram em 2020. Porém, as mobilizações antirracistas globais, impulsionadas pelos assassinatos de pessoas negras, impulsionaram esse debate. Os monumentos alvos de protestos seguem um perfil: são homenagens a homens, brancos, dominadores (ou seja, que colonizaram povos, ou foram responsáveis diretos por uma intensa carga de opressão sobre uma população), erguidas entre os séculos XIX e XX.

Em junho de 2020, no Reino Unido, em Bristol (Reino Unido), a estátua de Edward Colston foi mergulhada no rio Avon. Colston era um destacado membro da Royal African Company (uma das mais importantes companhias de tráfico negreiro da Europa). No mesmo país, a Universidade de Oxford decidiu remover o monumento a Cecil Rhodes, provavelmente o maior nome do imperialismo britânico sobre a África. Outro monumento a Rhodes, que em 1934 fora erguido na Universidade da Cidade do Cabo (África do Sul), desde 2015 já havia sido removido.

A estátua do rei da Bélgica, Leopoldo II, também foi retirada de uma praça na Antuérpia. É a mesma cidade portuária que recebeu toneladas de marfim e borracha do Congo, quando este país ainda era uma colônia belga. A atuação direta de Leopoldo II nessa colonização gerou um dos maiores genocídios da história contemporânea.

Em Barcelona (Espanha), o monumento original a Antonio López y López (empresário enriquecido com o tráfico negreiro) já havia sido derrubado pelos anarquistas durante a Guerra Civil Espanhola. Reerguida pela ditadura de Francisco Franco, a estátua foi definitivamente removida em 2018. Nesse mesmo raciocínio, em 2019, o governo de Madri retirou o caixão de Franco do Valle de Los Caídos e enviou os restos do cadáver a um cemitério comum. Essa medida teve por objetivo por fim às peregrinações fascistas que ocorriam em Los Caídos pelos saudosos do franquismo.

O que leva um grupo da sociedade a querer homenagear alguém? Esse indivíduo, com suas realizações, favoreceu à população como um todo ou apenas um grupo específico? Qual é o perfil político e social predominante entre quem defende que esse tipo de monumento deva ser mantido exatamente como está? Que tipo de sociedade considera válido homenagear indivíduos cujas ações glorificadas significaram a tirania sobre outras pessoas? Qual seria a reação da população de Tel Aviv (Israel) se fosse erguido um "monumento ao soldado nazista" na cidade?

Nos Estados Unidos, o Museu de História Natural de Nova York anunciou, em junho de 2020, a retirada do monumento ao presidente Theodore Roosevelt de sua entrada. Além da política externa de "Ted" Roosevelt ter sido desastrosa à América Latina, ele foi um entusiasta do massacre sobre povos negros e indígenas dos EUA. Ainda no país, em Charlottesville, ocorreu em 2017 o maior movimento neonazista da América no século XXI (o "Unir a Direita"), convergindo supremacistas brancos em defesa do monumento ao General Robert Lee, escravocrata líder dos confederados na Guerra de Secessão.

Os movimentos de contestação a esse tipo de monumento não querem apagar a história. Não foi exigido, por exemplo, o fim da cidade de Ouro Preto (MG), cujo patrimônio foi erguido basicamente com trabalho escravizado, ou de Brasília (DF), cuja construção ceifou incontáveis vidas de operários ultra-precarizados (à época chamados de "candangos"). Eles repudiam um tipo específico de homenagem feita a homens brancos dominadores. Esses movimentos alertam que a mudança de mentalidade demanda rupturas com um passado de tolerância à celebração de genocidas.

A contestação a esses monumentos aponta que eles devem ser preservados em outros locais, não em espaços públicos para glorificar as ações desses indivíduos. Podem ser encaminhados a museus, ou pode até ser criado um parque especificamente para eles, como é o caso Szoborpark, em Budapeste (Hungria), que desde 1993 preserva monumentos do período soviético.

Esses monumentos foram feitos, em verdade, por meio de um grave revisionismo histórico: apagando memórias dos povos dominados e contando apenas a história dos dominadores a partir da celebração de indivíduos heroicizados. Além disso, eles impõem ao presente sua aceitação e um silenciamento (pois a aura de eternidade construída em todo deles rejeita que sejam removidos e até mesmo questionados).

Para não ser apagada, a História demanda que diferentes narrativas sejam contrapostas. Dessa forma, devemos nos questionar: manter as mesmas narrativas datadas e ultrapassadas sobre esses personagens é o melhor que nossa sociedade consegue oferecer? É esse tipo de memória que nossa época pretende legar ao futuro?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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O Dicas de Vestibular é produzido e atualizado pelos professores do Anglo Vestibulares e do Sistema Anglo de Ensino.

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