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Histórico

A pandemia sobre o espaço urbano

Dicas de Vestibular

13/07/2020 10h48

Por Pablo López Silva, professor do Anglo Vestibulares 

As cidades são espaços de mistura, de intensas trocas sociais, econômicas e políticas. Abrangem fluxos de pessoas, informações, mercadorias e capitais, cuja densidade pode variar conforme seu tamanho e influência. Toda essa dinâmica e densidade tornaram as cidades espaços atrativos ao longo da história, sinônimo, para alguns, de ascensão social e prosperidade.

Quanto a isso, porém, a pandemia provocada pelo novo coronavírus deixará sobre o espaço urbano e seus moradores muitas sequelas, as quais, provavelmente, serão sentidas por muito tempo. Afinal, antes de mais nada, é importante perceber que uma pandemia viral, em que o distanciamento social representa a única medida efetiva de controle sobre a doença, ataca diretamente a essência da cidade, cujo funcionamento depende dessas trocas, dessa mistura.

As medidas de distanciamento social alteraram significativamente a vida urbana. Os fluxos de pessoas caíram como nunca com o fechamento do comércio, escolas, escritórios, fábricas e obras. Consequentemente, toda a sociedade teve que se adequar a uma nova realidade e, nesse momento, as desigualdades sociais, que sempre fizeram parte da sociedade brasileira, ficaram ainda mais evidentes. Aqueles que podiam, passaram a trabalhar e estudar seguros em casa, enquanto milhões de pessoas ficaram sem aulas e perderam seus negócios e empregos, ao mesmo tempo em que voltar para casa não representava, necessariamente, um local seguro para se proteger do vírus.

A segregação socioespacial corresponde à materialização dessas desigualdades sociais no espaço urbano, característica de grande parte das cidades de países em desenvolvimento, como o Brasil, onde cerca de 50% dos empregos estão em atividades informais de baixa remuneração, como o comércio ambulante, bicos na construção civil e trabalhos domésticos. Essa população informal vive, predominantemente, em espaços segregados, por exemplo, favelas – que apresentam elevada densidade demográfica e precário acesso ao saneamento básico, aspectos que dificultam demais o distanciamento social e as medidas de higiene pessoal tão necessárias para conter a expansão do coronavírus.

O mapa dos casos e das mortes provocadas pela COVID-19, concentradas especialmente em áreas mais pobres, escancara essa segregação socioespacial das cidades brasileiras e aponta, inclusive, para uma tendência de agravamento das consequências da doença caso políticas sociais e medidas de planejamento urbano não sejam adotadas com celeridade. Com medo do coronavírus e de seus possíveis efeitos sobre o crescimento da pobreza e da violência, a população com maior poder aquisitivo poderá se isolar ainda mais em espaços privados controlados, como condomínios residenciais e empresariais e shoppings centers, enquanto a situação nos demais espaços poderá se agravar ainda mais com o abandono do poder público.

Devemos aprender com os erros do passado, quando, no começo do século XX, obras higienistas de combate a epidemias, como febre amarela, peste bubônica e varíola, privilegiaram apenas as áreas mais nobres de cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, expulsando as populações mais carentes, segregando-as em morros e periferias. Por se tratar de um espaço de mistura, os problemas urbanos devem ter soluções mais amplas, que atendam a coletividade, e não apenas interesses restritos. Esse é o princípio fundamental para o combate de uma pandemia.

Mais do que nunca se tornou necessário colocar em prática os princípios do Estatuto da Cidade (2001) e democratizar o direito e o acesso às infraestruturas urbanas. Nesse momento, é urgente haver maiores investimentos em saúde pública, ampliação de linhas de ônibus e meios de transportes alternativos, saneamento básico, rede elétrica e acesso à internet, além do auxílio financeiro emergencial para os trabalhadores e pequenos empreendedores, que possam beneficiar a parcela da população mais afetada pela pandemia, possibilitando o seu deslocamento no espaço urbano ou a permanência em casa, com segurança.

Sobre os Autores

O Dicas de Vestibular é produzido e atualizado pelos professores do Anglo Vestibulares e do Sistema Anglo de Ensino.

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