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Histórico

Sobre a grafia do porquê

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23/07/2019 13h12


*por Francisco Platão Savioli, autor do Sistema Anglo de Ensino

Uma primeira informação: entre 1000 palavras escolhidas aleatoriamente em questões de provas sobre ortografia, o porquê é o campeão disparado de frequência estatística.

Confira no gráfico reproduzido a seguir, que selecionou as 20 primeiras:

Esse levantamento mostra que: a grafia do porquê corresponde a 1/4 das 20 questões mais incidentes.

Uma segunda informação: a grafia do porquê não é uma questão pura de ortografia. Prova disso é que não se resolve com mera consulta a dicionário.

Fundamentos para efeito de condução do raciocínio:

  • é necessário detectar se são duas unidades distintas, portanto separadas; se são duas unidades reduzidas a uma só, portanto juntas.
  • se o quê é tônico, portanto acentuado; se é átono, portanto sem acento.

1º movimento:

Por que como duas unidades, em frases interrogativas.

Partindo de uma hipotética pergunta:

Políticos trocam de partido por dinheiro?

Núcleo da pergunta: dinheiro é a causa da troca de partidos?

Que operação linguística foi acionada para construir esse sentido?

A expressão por dinheiro está associada ao verbo (trocam) por meio de uma preposição (por), que estabelece uma relação de causa.

Imagine agora que o enunciador não queira fazer a pergunta concentrada numa causa específica, para dar mais liberdade de resposta ao interlocutor.

Que recurso a língua oferece para essa mudança de estratégia?  A língua permite trocar uma palavra de sentido restrito (dinheiro) por outra de sentido indeterminado, o pronome interrogativo (que).

Obtém-se, com isso, uma pergunta de sentido mais amplo, com a mesma estrutura do modelo anterior:

 

Esse encadeamento de raciocínios permite concluir a regra que se vê resumida nos manuais didáticos:

     1. No final de frases interrogativas, por quê é separado e com acento.

Em posição final de frases interrogativas o quê é sempre tônico, e monossílabos tônicos terminados por e são acentuados. Uma dica: quando o e é uma vogal tônica não soa como i, nem na fala informal.

A mesma operação linguística dá origem a este enunciado:

O sentido se manteve, com uma única diferença: a locução adverbial (por que) saiu da posição final. Por capricho da língua, o que passou a ser pronunciado como átono. Deslocado da posição final de frases interrogativas, o que é átono, e monossílabo átono não tem acento.

Vai daí a segunda síntese didática:

     2. Fora da posição final das interrogativas, por que é separado e sem acento.

 Há um outro modo de fazer a pergunta:

O sentido interrogativo se mantém, com uma diferença: a interrogação é feita de maneira, digamos, indireta. Encaixa-se a oração interrogativa como complemento de um verbo ou expressão que indica pergunta: pergunto, responda, quero saber, diga, etc. Essa estratégia permite que o enunciador faça a pergunta de um modo mais polido ou mais descortês, conforme a escolha do verbo que introduz a pergunta.

Pode-se enunciar essa terceira regra, assim:

     3. Nas frases interrogativas indiretas, por que é separado e sem acento.

2º movimento:

preposição por + que, pronome relativo

Ainda nessa estrutura se percebem duas unidades distintas: a preposição indicadora de causa se mantém (por), mas o pronome passa a ser outro: é um anafórico, que tem como referência uma palavra da oração anterior (razão). Prova disso é que a expressão pode ser permutada por outra de sentido equivalente (pela qual). [Só é preciso entender que, seguida de artigo, a preposição por assume a forma arcaica (per), o artigo assume a forma, também arcaica, (la). Per + la sofre alteração de pronúncia: pela, mas o sentido continua o mesmo. O pronome relativo que, assumindo a forma a qual tem uma vantagem: por meio da concordância, percebe-se, com mais clareza, que ele tem como referência uma palavra feminina da oração anterior: razão].

Quarta dica:

     4. Quando se trata da preposição por + que, pronome relativo, a expressão se escreve separada e sem acento.

3º movimento:

porque constituindo uma só unidade

Nesse enunciado, não é possível segmentar porque em duas palavras com função e sentido diferentes. Há uma só, que está ligando duas orações entre si, estabelecendo uma relação de causa. É uma conjunção causal e tem o sentido de visto que, já que.

No enunciado a seguir, porque é também uma palavra só:

Não vote em políticos desconhecidos, porque vão decepcioná-lo.

Nesse caso, porque está ligando duas orações entre si, com uma diferença: está estabelecendo uma relação explicativa, que consiste em agregar um argumento, por meio do qual o enunciador tenta justificar o que está afirmando na oração anterior. É uma conjunção explicativa e equivale a pois.

Pode-se, então, incluir os dois casos numa só regra:

Quando porque funciona como conjunção, sempre se escreve junto e sem acento (o e é átono: na fala informal pode soar como i).

 4º movimento:

porquê junto e com acento

Não queira saber o porquê de todas as coisas.

Nessa frase, também não é possível segmentar porquê em duas palavras com função e significado distinto. É um substantivo de sentido equivalente a motivo. Vem sempre precedido de artigo ou palavra modificadora (o, um, algum, nenhum, etc.), é escrito junto, porque é uma única palavra, e com acento, pois o e é tônico.

Outros exemplos:

O advogado usou um porquê sem nenhuma relação com a causa.

Não ficou nenhum porquê sem explicação.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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O Dicas de Vestibular é produzido e atualizado pelos professores do Anglo Vestibulares e do Sistema Anglo de Ensino.

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