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Dicas de Vestibular

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Histórico

A agenda do jornalismo na era das notícias falsas

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10/05/2019 14h24

* Por Felipe Leal, professor do Anglo Vestibulares e do Colégio Anglo São Paulo

Quem tem ou já teve uma agenda sabe: não faltam datas especiais em homenagem ao jornalismo. Em parte por isso, as efemérides se tornam burocráticas lembranças, perdendo muitas vezes os seus significados originais. É o caso do dia mundial da liberdade de imprensa, comemorado em 3 de maio. No entanto, o contexto atual, marcado por ameaças à democracia como a propagação de notícias falsas, torna interessante refletir sobre esse valor.

A data surgiu de um documento composto por jornalistas de países africanos no início dos anos 90, a Declaração de Windhoek, que defendia a necessidade de garantir um jornalismo independente, plural e livre para sociedades democráticas. Isso em um continente em que jornalistas eram mortos e feitos prisioneiros por suas atividades. Mas não se engane: Windhoek é aqui. Afinal, segundo relatório da ONG Artigo 19 (nome que faz referência ao artigo que defende a liberdade de imprensa na Declaração Universal de Direitos Humanos da ONU), ameaças ao jornalismo cresceram 30% em 2018 no Brasil, com quatro assassinatos, quatro tentativas de assassinato, um sequestro e 26 ameaças de assassinato contra jornalistas. Sem falar, é claro, de ataques vindos de políticos a jornalistas e meios de comunicação, que andam mais comuns no Brasil do que datas em homenagem a profissões e valores nas agendas.

De fato, há muitas relações entre jornalismo, democracia e direitos humanos. Sem jornalismo, só temos acesso ao que os políticos querem, seja quando elogiam a si mesmos, seja quando atacam adversários. Sem liberdade de imprensa, os governantes podem perseguir e prender jornalistas, o que é bem pior do que chamar de fake news notícias incômodas para eles. Por isso, na declaração da ONU e em diversas constituições democráticas – inclusive a nossa –, está garantido o direito dos cidadãos à informação. E, para que possamos nos informar, estão garantidos direitos como o veto à censura prévia, a liberdade de imprensa e o direito dos jornalistas de não revelarem suas fontes de informação, por exemplo.

Tudo isso é muito bonito, mas, como você já deve estar pensando, não corresponde inteiramente à prática. Há casos no mundo em que governos eleitos minam a democracia por dentro, perseguindo a imprensa e cooptando meios de comunicação, como na Hungria. No Brasil, também não têm faltado ameaças: nos últimos tempos, o Poder Judiciário já prendeu um blogueiro, censurou previamente a entrevista de um ex-presidente e mandou retirar de um site uma notícia contrária ao atual presidente do Supremo Tribunal Federal. Por outro lado, a prática do jornalismo é comprometida pela crise econômica e pela concorrência com uma indústria de fake news, a qual não deve ser confundida com bobagens de um tiozão nos grupos de mensagens da família, pois são produzidas por profissionais do marketing e da manipulação política.

É nesse cenário que o manifesto dos jornalistas em Windhoek tem seu sentido renovado: democracia pressupõe um jornalismo independente, plural e livre. Para ser independente, não pode ser produzido sem transparência por marqueteiros de aplicativos de mensagem. Para ser plural, não pode estar sujeito ao monopólio de poucas empresas, como no Brasil. E, para ser livre, não pode ser alvo de abuso de poder por parte das autoridades que não sabem lidar com críticas e com a diversidade. Se essas condições entrarão em nossa agenda, isso certamente depende tanto dos jornalistas quanto da sociedade, que mais do que nunca precisa de informações produzidas com critério para fazer valer seus direitos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre os Autores

O Dicas de Vestibular é produzido e atualizado pelos professores do Anglo Vestibulares e do Sistema Anglo de Ensino.

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