Dicas de Vestibular

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Liu Xiaobo e os Direitos sem Nobel
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Liv Ullmann lê texto de Liu Xiaobo em cerimônia de entrega do Nobel da Paz 2010/ Foto: Marta B. Haga

O hospital da China Medical University passou por um dia extremamente agitado em 13 de julho. Nessa data, em decorrência do agravamento de um câncer de fígado, faleceu seu paciente mais famoso: Liu Xiaobo, militante chinês em defesa dos Direitos Humanos, ganhador do Prêmio Nobel da Paz em 2010.

Condenado a 11 anos de prisão por crimes de “subversão” contra o Estado chinês, Liu Xiaobo estava encarcerado desde dezembro de 2008.  Sua detenção se deu poucos meses após o encerramento das Olimpíadas de Pequim, quando a mídia internacional não mais focava sua atenção à China. Desde 1938, ano da morte em um campo de concentração nazista do jornalista alemão Carl von Ossietzk (que venceu o Nobel da Paz em 1935), Xiaobo foi o único premiado pelo comitê Nobel a morrer aprisionado.

O governo de Pequim acusava o militante de ser o líder da elaboração e divulgação do manifesto Charter 08, um documento assinado por mais de 300 opositores e intelectuais, que exigia reformas pró-democracia na China. Os embates entre o Estado chinês e Liu Xiaobo começaram ainda em 1989, momento em que  ele participa das manifestações que culminaram no Massacre da Praça da Paz Celestial. Desde então, ele havia sido preso outras três vezes.

Inspirado no Charter 77 da ex-Tchecoslováquia, que exigia aberturas políticas na antiga União Soviética, o Charter 08 consiste em uma carta exigindo reformas políticas ao Estado chinês e o compromisso com a Declaração Internacional dos Direitos Humanos da ONU, da qual a China é signatária. Segundo esse manifesto, o governo controlado pelo Partido Comunista Chinês deve arcar com compromissos de democratização e respeito aos Direitos Humanos assumidos em diferentes ocasiões nos anos de 1998, 2004 e 2008.

Na grande medida, a repercussão internacional da morte de Liu Xiaobo decorre dele ser um ganhador do Nobel da Paz. A credibilidade do prêmio já foi contestada por algumas vezes, como quando em 1973 o agraciado foi o Secretário de Estado dos EUA, Henry Kissinger, responsável por crimes de guerra no Oriente e golpes de Estado na América Latina. Mesmo a escolha do ex-presidente norte-americano Barack Obama (2009) foi marcada por controvérsias, uma vez que ele recebeu a premiação no mesmo momento em que os EUA atacavam militarmente países do Oriente Médio.

A escolha da premiação é decidida por um comitê formado por parlamentares da Noruega. Trata-se de uma deliberação importante simbolicamente, pois permite que determinadas causas humanitárias adquiram maior visibilidade. Entretanto, quando optam por premiar alguma liderança de oposição envolta em lutas humanitárias, curiosamente escolhem esses chamados “dissidentes” de alguma parte do mundo em que os governos não sejam alinhados politicamente com os EUA ou com a Europa.

Há uma infinidade de “dissidências” políticas em países cujos governos são completamente alinhados a Washington e à União Europeia. A premiação de cerca de um milhão e meio de dólares (valor concedido a quem recebe o Nobel da Paz) certamente seria de grande auxílio na defesa dos Direitos Humanos. Além, obviamente, na obtenção de uma notoriedade internacional para suas causas.

Haveria algum constrangimento ao presidente dos Estados Unidos se eventualmente a escolha do comitê norueguês fosse a norte-americana Opal Tometi, uma das fundadoras do movimento antirracista Black Lives Matter? Seria problemático ao governador do Estado de São Paulo se a escolhida fosse Débora Maria da Silva, fundadora do movimento Mães de Maio, que combate as ações criminosas cometidas pela Polícia Militar sobre populações periféricas?

Independentemente de premiações, globalmente a situação dos direitos humanos no início do século XXI adquire uma urgência aflitiva. Na Síria, ou em Gaza, nas fábricas da Foxconn da China, em maquiladoras mexicanas, na Paris dos imigrantes africanos, na São Paulo dos haitianos. Em qualquer parte do mundo há enormes contingentes populacionais sem acesso a esses direitos.

O que vivenciamos, infelizmente, é a derrota de Liu Xiaobo no convívio social diário de nossas sociedades. Assistimos cotidianamente ao fortalecimento de organizações políticas que sequer reconhecem a premissa de que todos os seres-humanos devem possuir direitos. E considerando as semelhanças entre nossa época e a primeira metade do século XX, aquele tempo também estava repleto de forças políticas que desprezavam os pressupostos da Charter 08… Não funcionou muito bem.


É preciso ser um bom leitor: texto lido é texto grifado!
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Em breve, terá início a maratona dos vestibulares. Durante as provas, os candidatos estarão diante de textos de diferentes naturezas: narrativos, descritivos, dissertativos, injuntivos ou instrucionais, apresentados sob diversas formas: verbais, não-verbais e sincréticos. E eles estarão presentes em diversas situações de prova: nos enunciados, nos textos para análise, nas legendas das fotos e gráficos, na coletânea de textos da prova de redação, nas instruções gerais da prova…

Os exames vestibulares são, antes de tudo, provas de leitura. Isso significa que serão selecionados os melhores leitores, e ser um bom leitor significa cumprir instruções, fazer abstrações, compreender com profundidade os textos. Quantas vezes o candidato não errou uma questão de matemática, de biologia ou mesmo de geografia por ter feito uma leitura equivocada ou por não ter compreendido o comando de um enunciado?

Para fazer uma leitura adequada, é preciso levar em conta algumas características importantes de um texto:

a) A condição de produção: é necessário compreender os valores e os significados apresentados no texto, de acordo com o contexto de produção, ou seja, o momento histórico, a cultura em que foi produzido.

b) As relações interdiscursivas: há links entre o texto e a realidade que o cerca; é desejável identificar, na medida do possível, as relações interdisciplinares e intertextuais.

c) Os objetivos do enunciador: o texto pode ter a função de retratar uma realidade, de informar, de levar alguém a crer em determinada construção de “verdade”, de levar alguém a agir de determinada maneira, dentre outras.

d) A relação de interlocução: a relação entre o enunciador e o enunciatário, ou seja, entre o produtor do texto e o leitor determina os valores em jogo, a linguagem utilizada e até mesmo o gênero discursivo.

e) Os mecanismos e as estratégias linguísticas de construção: as escolhas lexicais, bem como as diversas combinações que podem ser produzidas, determinam a construção de significados e os efeitos de sentido do texto.

Vejamos como uma questão da Fuvest avalia a capacidade de leitura por meio do seguinte texto:

Tornando da malograda espera do tigre, alcançou o capanga um casal de velhinhos, que seguiam diante dele o mesmo caminho, e conversavam acerca de seus negócios particulares. Das poucas palavras que apanhara, percebeu Jão Fera que destinavam eles uns cinquenta mil-réis, tudo quanto possuíam, à compra de mantimentos, a fim de fazer um moquirão*, com que pretendiam abrir uma boa roça.
— Mas chegará, homem? perguntou a velha.
— Há de se espichar bem, mulher!
Uma voz os interrompeu:
— Por este preço dou eu conta da roça!
— Ah! É nhô Jão!
Conheciam os velhinhos o capanga, a quem tinham por homem de palavra, e de fazer o que prometia. Aceitaram sem mais hesitação; e foram mostrar o lugar que estava destinado para o roçado.Acompanhou-os Jão Fera; porém, mal seus olhos descobriram entre os utensílios a enxada, a qual ele esquecera um momento no afã de ganhar a soma precisa,que sem mais deu costas ao par de velhinhos e foi-se deixando-os embasbacados.
José de Alencar, Til.
* moquirão: mutirão (mobilização coletiva para auxílio mútuo, de caráter gratuito).

Considerada no contexto, a palavra sublinhada no trecho “mal seus olhos descobriram entre os utensílios a enxada” (L. 17-18) expressa ideia de
a) tempo.
b) qualidade.
c) intensidade.
d) modo.
e) negação.

Essa questão versa sobre a maneira como escolhas lexicais do autor do texto contribuem para a criação dos sentidos pretendidos. No texto,a palavra “mal” foi empregada com o valor temporal, como sinônimo da expressão “assim que”, estabelecendo quase uma simultaneidade entre a descoberta dos utensílios pelos “olhos” de Jão Fera e o ato de este dar as costas aos velhinhos e ir embora.

Sobre esse mesmo texto, uma nova questão:

As práticas de Jão Fera que permitem ao narrador classificá-lo como “capanga” assemelham-se, sobretudo,às da personagem citadina do
a) valentão Chico-Juca, nas Memórias de um sargento de milícias.
b) malandro Prudêncio, nas Memórias póstumas de Brás Cubas.
c) arrivista Miranda, em O cortiço.
d) agregado Zé Fernandes, em A cidade e as serras.
e) soldado amarelo, em Vidas secas.

Desta vez, o vestibular elaborou um tipo de questão em que, por meio dos efeitos semânticos das palavras, verifica-se a construção da imagem dos personagens: segundo o dicionário Aurélio, capanga é um “valentão que se coloca ao serviço de quem lhe paga”. Chico-Juca é um arruaceiro conhecido por arrumar confusões, ser muito violento e agressivo, sendo contratado por Leonardo Pataca para promover a desordem na festa da Cigana. Jão Fera, em Til, é um famoso matador de aluguel. Ambos, portanto, têm comportamentos que permitem incluí-los na categoria de capangas.

Por fim, algumas recomendações:

• O tempo é restrito, no entanto leia devagar, com atenção para não ter de repetir a leitura.
• Texto lido é texto grifado: grife partes importantes dos textos de apoio, termos de destaque e todos os comandos do enunciado.
• A gramática está a serviço do texto: atenção às relações semânticas estabelecidas por meio dos conectores sintáticos.

Boa leitura e boa prova!

 


Redação: comece a se preparar desde já
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*Texto por Sérgio Paganim

Como você está se preparando para enfrentar os exames neste ano? Quais são as suas estratégias para tornar mais eficientes os seus estudos? Assistir atentamente às aulas, anotar tudo o que seus professores falam, elaborar resumos, fazer listas de exercícios e simulados, organizar estudo em grupo, frequentar aulas particulares, estudar por meio de aplicativos via internet ou de provas de anos anteriores, devorar livros de teoria para aprofundamentos… Além de dominar o conhecimento, aprender a aprender é uma das habilidades fundamentais para o sucesso nos vestibulares e na vida acadêmica que está por vir.

E a redação? Como é sua preparação para o exame mais trabalhoso e “líquido” dos exames vestibulares e do Enem? Você já deve ter ouvido muito conselho duvidoso, muitas “dicas” para mandar bem na redação: buscar informações que possam ajudar a “adivinhar” o tema, ler diariamente jornais e revistas para tentar se manter atualizado, copiar irrefletidamente editoriais de jornais de grande circulação, “caprichar” no vocabulário para impressionar o examinador do texto com palavras rebuscadas…

Mas como é possível melhorar mesmo a qualidade da análise que você fará sobre o tema proposto para a discussão? É verdade que ler muitas notícias do cotidiano e usá-las no texto pode dar a ele ares de atualidade. Mas nem sempre é fácil transformar um fato em argumento: quantas vezes você já não experimentou a dificuldade de ajustar à reflexão de seu texto, por exemplo, o que leu sobre a escassez de água nos reservatórios do Sudeste?

Os textos opinativos que você encontra em jornais e revistas (impressos ou digitais) podem ser uma valiosa maneira de desenvolver sua capacidade de argumentar com eficiência: programe-se para ler, diariamente, um editorial, ou um artigo de opinião, ou o comentário de um jornalista publicado em um blog, ou uma entrevista em que uma personalidade expõe sua visão de mundo, um pequeno ensaio, por meio do qual você acompanhe as interpretações que podem ser feitas da realidade. Em meio ao oceano de informação e opinião que banha a imprensa, escolha um texto opinativo para dissecar diariamente, para reconhecer que argumentos foram acionados por seu autor para sustentar sua reflexão, que significados ele enxerga por trás dos fatos que analisa.

A leitura regular de gêneros textuais opinativos vai desenvolver sua competência argumentativa, sua capacidade de direcionar informações e conhecimentos para sustentar seus pontos de vista. Seja imitando os procedimentos argumentativos dos textos, seja discordando deles, você se qualifica para enfrentar qualquer tema de redação – desde que, além dessas leituras programadas, você também redija com regularidade. A sabedoria popular há muito apregoa que água mole, em pedra dura, tanto bate até que fura.

 


10 dicas e 10 perguntas para quem vai fazer redação no vestibular
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Dicas de Vestibular

*por Humberto Cosentine

Startup Stock Photos

O dia a dia de quem está se preparando para grandes vestibulares, especialmente aqueles de segunda fase, é recheado de incertezas, especialmente quanto à redação. Elencamos 10 dicas a partir de dúvidas frequentes de alunos e 10 perguntas fundamentais para guiar você na hora da produção do texto. Veja a seguir.

Dicas:

1. Leia bem a proposta.  Ela é uma instrução.  Perceba detalhes.  Siga-a respeitosamente. Procure incluir em seu texto as palavras-chave do tema.

2. Leia bem a coletânea.  Mergulhe em seus textos em busca de repertório que o auxilie a argumentar em favor de sua tese/opinião. Marque tudo que for interessante. Anote. “Texto lido é texto riscado” (Lucy).

3. Defina sua tese.  Ela funciona como uma espinha dorsal orientadora dos seus argumentos.  Se não há tese, os argumentos defenderão o quê?

4. Tendo a tese e os argumentos, pronto! Você tem um projeto de texto.

5. Introdução: apresenta e envolve.  Intro (dentro) + dução (conduzir) = levar (o leitor) para dentro. Inclui uma contextualização/problematização e uma indicação de tese (ou a tese).
Obs.: há outros modelos, mas esse é mais fácil. Ah! Precisa ser bem clara para atrair o leitor.

6. Desenvolvimento:  é a argumentação, a defesa da tese/opinião. Se bem que todas as partes do texto são argumentativas, todas visam convencer o leitor da validade da tese.

7. Conclusão: faça referência aos pontos principais da argumentação e, a partir disso, realize uma espécie de reflexão, muito atrelada aos argumentos (não é para sair voando) e relacionada à tese.

8. Conclusão com intervenções: escolha dois ou três agentes sociais, estruture suas ações, concretize-as, detalhe-as.  Não seja vago ou genérico.  Além disso, relacione-as aos problemas colocados nos argumentos. Esse casamento é muito importante.
Obs.: intervenções não são exclusividade do Enem, você pode incluí-las em redações de qualquer vestibular, desde que pertinentes ao tema analisado.

9. Para construir o texto, você precisa ter dentro de si um pedreiro, um engenheiro, um arquiteto e um supervisor. O arquiteto faz o projeto de texto. O engenheiro decide qual repertório (da coletânea ou próprio) utilizar em cada parágrafo.  E o pedreiro transforma o repertório escolhido em argumentos, com a escolha de palavras (tijolos) e conexões/pontuação (cimento). O supervisor fica o tempo todo verificando se há falhas no trabalho dos três.

10. Evite dialogar com o leitor (você …), usar a primeira pessoa do singular (eu …), escrever frases muito longas, parágrafos com apenas uma frase, argumentar ou incluir informações novas na conclusão, repetir a mesma palavra muitas vezes, pôr vírgula entre sujeito e predicado, usar “onde” para se referir a algo que não seja lugar, quebrar paralelismo sintático (pesquise), usar conectivos inadequados ao contexto.

Perguntas que você deve fazer a você mesmo enquanto produz sua redação:

1. Essa palavra é adequada ao que quero expressar?
2. As frases estão completas?
3. Os parágrafos têm foco?  Estão apoiando a tese?  Estão interligados, como um passo levando ao outro?
4. A tese está clara?
5. Estou respeitando mesmo a proposta?
6. Usei a coletânea pelo menos um pouco, ou como pede a proposta?
7. A conclusão passa a ideia de fecho/fim?
8. Estou deixando bom espaço para a intervenção? (+/- 9 linhas) (Enem)
9. Estou controlando bem o tempo?
10. Estou nervoso demais? (Se sim, vá ao banheiro e faça algumas caretas para o espelho).

Boa redação!

humberto


Veja 4 erros comuns na interpretação de questões no vestibular
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Por Ian Oliverpen-writing-notes-studying

Sem dúvida, a interpretação de textos é a categoria que mais tem espaço nos vestibulares modernos. Não somente pelas questões desse tipo ganharem cada vez mais espaço na prova de Português, como também por ganharem espaço em todas as outras disciplinas. Por isso, é fundamental que essa parte seja estudada com profundidade e algumas orientações sejam seguidas. Em questões de múltipla escolha, as bancas seguem um padrão relativamente estável para produzir alternativas falsas. Em geral, elas são redigidas com base em erros de leitura comumente cometidos pelos alunos. Entre os mais habituais, estão:

1) Generalização:

Basicamente, a generalização implica ampliar artificialmente o alcance de uma afirmação no texto, atribuindo a ela um efeito totalizador não pretendido pelo autor. Se o texto não generalizou, cuidado. Você pode estar diante de uma alternativa falsa. Por isso, tenha cautela na leitura dos itens da questão: expressões totalizadoras como “tudo”, “todos”, “sempre”, “sem exceção”, entre outras, podem produzir alternativas falsas.

2) Embaralhamento de ideias:

Outro modo de criar alternativas falsas é estabelecendo relações impróprias entre ideias do texto. A estratégia é simples: as bancas escolhem duas ideias contidas no texto e, nos itens falsos, estabelecem entre elas uma relação que o próprio texto não estabeleceu. Cria-se, assim, uma falsa relação, que pode ser de causa e consequência, de comparação, de oposição, entre outras. É indispensável, portanto, atenção redobrada nas relações entre ideias estabelecidas no texto. O embaralhamento de ideias muitas vezes produz itens falsos muito sedutores para os alunos pelo fato de as ideias estarem presentes no texto, embora a relação entre elas esteja equivocada.

3) Descontextualização:

Um importante recurso a ser usado, dentro da interpretação de texto, é reconhecer o sentido de uma palavra dentro do contexto em que ela aparece. Uma das formas de distorção de leitura e, portanto, de produção de alternativas falsas, é alterar o significado que uma palavra tem num determinado contexto, atribuindo a ela um sentido distorcido (o qual pode até ser mais comum isoladamente mas, naquele determinado contexto, era descabido).

4) Intromissão Discursiva:

Talvez a distorção de leitura mais comum seja a intromissão discursiva. Basicamente, o candidato coloca um discurso do seu repertório pessoal acima da superfície textual e acaba marcando uma alternativa, não porque ela está presente no texto, mas porque ele – candidato – concorda com ela. Desse modo, o aluno tem tamanha convicção de uma ideia, que acaba intrometendo-a no texto. As bancas muitas vezes se aproveitam dessa intromissão, criando alternativas com as quais a maioria dos candidatos concorda, embora não tratem de ideias contidas no texto. Por isso, atenção: questões de interpretação de texto são resolvidas a partir do texto, e não das ideias que você gostaria, por convicção ideológica de qualquer espécie, que estivessem no texto.

Bom estudo!

Ian Oliver


Treinamento constante é a chave para obter sucesso na redação do vestibular
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*Por Luciana Migliaccio (Lucy)

Woman writing with pen

No livro “Do Que Eu Falo Quando Eu Falo de Corrida”, o escritor japonês Haruki Murakami, um dos mais importantes da literatura japonesa da atualidade, traça um paralelo entre o ato de correr e o ato de escrever. O autor – e maratonista –  afirma que as principais qualidades de um escritor são: “talento”, “concentração” e “persistência”, e que essas duas últimas podem ser conquistadas e aperfeiçoadas com treinamento, assim como ocorre a preparação física de um atleta para uma maratona.

Em certo trecho de sua obra, ele afirma: “A maior parte do que sei sobre escrever, aprendi correndo todos os dias. São lições práticas, físicas. Até onde posso me forçar? Quanto descanso é apropriado? Quanta consciência do mundo exterior devo ter e quanto devo me concentrar em meu próprio mundo interior? Sei que se eu não tivesse me tornado um corredor de longa distância, quando me tornei romancista, minha obra teria sido vastamente diferente”.

Murakami nos serve de inspiração. A redação de vestibular, tão temida pelos candidatos – e com razão de ser, uma vez que interfere de maneira decisiva na aprovação  –  é uma habilidade que se conquista por meio do treinamento: EXIGE EMPENHO, TRABALHO. Ao contrário do que dita o senso-comum, a escrita NÃO É UM FENÔMENO ESPONTÂNEO, UM DOM que poucas pessoas têm. Mas também NÃO É UMA COMPETÊNCIA QUE SE FORMA COM ALGUMAS “DICAS”; exige do indivíduo um estudo sério e orientado. O ato de escrever requisita que se tenha intimidade com a língua escrita formal; a corrida, preparação física.

As perguntas feitas pelo escritor são muito pertinentes. O candidato ao vestibular deve treinar sua escrita como se estivesse se preparando para uma “maratona” (e aqui, a metáfora é muito usual): o vestibular. A frequência de produção textual depende de uma série de fatores: em ano de vestibular, o tempo é exíguo, o candidato se desdobra entre centenas de aulas e exercícios das variadas matérias que compõem a prova. Por isso, é necessário “balancear” o estudo para que uma preparação não interfira em outra.

A frequência ideal de produção de redações é um texto por semana, de temas variados, contando, nesse treinamento, com o auxílio de um profissional qualificado – uma espécie de  personal  ­ ­ que figure como “examinador”, que aponte os pontos falhos e as qualidades de cada texto elaborado, a fim de que ele seja melhorado. Inicialmente, há uma certa “flexibilidade” em relação ao tempo de produção textual: pequenos trechos podem ser produzidos em dias e momentos variados até a composição final da redação. Pesquisar na internet, em jornais e revistas informações sobre o tema é um procedimento saudável – a “consciência do mundo exterior”, nos termos de  Murakami  – como uma aquisição de repertório.

Quanto mais próximo do momento da prova, mais organizado deve ser o estudo, e mais preparado para a situação real o candidato deve estar. Assim, alguns meses antes da prova, a intimidade com o ato de escrever deve levá-lo a produzir o texto, sem grandes dificuldades, entre 1h30 e 2h00, um tempo considerado adequado para a maioria dos vestibulares. As pesquisas devem ser evitadas, e o candidato deve se “concentrar em meu próprio mundo interior”, no repertório construído ao longo desse treinamento.

É preciso ser “persistente”, portanto, e não esperar resultado imediato: um bom texto é fruto de quilômetros de escrita. A redação deve ser vista como um “processo” sujeito a quedas, dores, superações e, por fim, vitórias.

lucy_migliaccio


O “certo” e o “errado”: veja 10 dicas para afinar seu Português
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*Por Eduardo Calbucci

maos_entre_papeisToda língua é um sistema de regularidades, sem o qual a comunicação não é possível. Mas, além der ser um sistema, ela também é um fato social. Em meio às múltiplas possibilidades de uso que esse sistema nos oferece, escolhemos as que nos parecem melhores em cada caso. Assim, a variante linguística por que optamos mostra como nos relacionamos com essa espécie de contrato social coletivo que é a língua, promovendo escolhas “certas”, porque adequadas, ou “erradas”, porque inadequadas à situação em que estamos.

A linha que separa o “certo” do “errado” é tênue. Não há acerto absoluto. Não há erro absoluto. O lugar, a época, o grau de escolaridade, a situação de comunicação, tudo isso influencia nossas escolhas.

Nas dez frases a seguir, adaptadas de um trabalho feito para o Museu da Língua Portuguesa em parceria com o professor Ataliba Teixeira de Castilho, queremos mostrar que o padrão culto da língua, aprendido na escola, convive com a língua popular, aprendida nas conversas cotidianas.

1 – Eu explodo de raiva.

Muitos gramáticos e dicionaristas consideravam “explodir” um verbo defectivo, que, como tal, não deveria ser usado na primeira pessoa do singular do presente do indicativo. Para eles, o melhor – no padrão culto da língua – seria dizer algo como “eu estou explodindo de raiva”. Mostrando que a língua muda, a forma “explodo” passou a ser usada também em textos cultos. Vitória da linguagem popular.

2 – Deixa eu estudar!

Quando os verbos “deixar”, “fazer”, “ver” e “mandar” vêm seguidos de infinitivo, usam-se os pronomes oblíquos no padrão culto da língua: “Deixa-me estudar”. No entanto esse tipo de construção com pronomes retos (“deixa eu estudar”, “deixa ele estudar”) está se tornando cada vez mais comum, fundamentalmente na língua oral.

3 – É proibido a entrada de pessoas estranhas.

O sujeito dessa oração é “a entrada de pessoas de estranhas”. Como seu núcleo (“entrada”) é feminino e veio acompanhado de artigo, o mais comum no padrão culto é que o adjetivo “proibido” concorde com “entrada”: “é proibida a entrada de pessoas estranhas”.

4 – Vamos se ver amanhã?

O pronome “se” é de terceira pessoa e deve ser usado, no padrão culto da língua, quando o sujeito da oração também está na terceira pessoa. Nesse caso, o sujeito do verbo “Vamos” é de primeira pessoa do plural (nós). Por isso, numa situação formal, é preferível dizer: “Vamos nos ver amanhã?”.

5 – Ele tinha chego atrasado.

Existem alguns verbos, chamados de abundantes, que admitem duas formas de particípio passado: aceitar (aceitado e aceito), imprimir (imprimido e impresso) ou eleger (elegido e eleito). Por analogia, obtêm-se formas como chego, ainda não acolhidas pela norma culta.

6 – Fazem dois dias que não nos vemos.

Uma sentença pode ser formada sem sujeito. É o que acontece quando usamos o verbo fazer para indicar tempo transcorrido. Trata-se de um verbo unipessoal, que, na língua culta escrita, permanece na terceira pessoa do singular.

7 – Prefiro mais falar do que escrever.

O verbo preferir significa, literalmente, “deslocar alguma coisa para uma posição de importância”, como consequência de a termos comparado a outra. Assim, a ideia de comparação já está embutida nesse verbo, e por isso não se tem aceito que o segundo termo da comparação venha antecedido por do que, nem que o verbo esteja acompanhado do intensificador mais. Assim, na língua culta, o melhor ainda é dizer: “prefiro falar a escrever”.

8 – Ele tem mal gosto para tudo.

As palavras mal e mau têm basicamente o mesmo sentido, mas pertencem a classes diferentes. Mal é substantivo quando precedido de artigo, como em o mal dos alunos é ter de decorar regras de gramática, e é advérbio quando acompanha um verbo ou um adjetivo, como em falar mal ou pessoa mal amada. Mau é adjetivo quando vem antes de substantivos, com os quais concorda, o que explica a construção “ele tem mau gosto para tudo”.

9A polícia interviu na briga.

Esse verbo se conjuga como vir, de que é derivado. Portanto: “a polícia interveio na briga”.

10 – A questão não tem nada haver com você.

Deve-se dizer: “a questão não tem nada a ver com você”. A expressão não ter nada a ver significa não ter nenhuma ligação. A confusão entre “a ver” e “haver” se dá porque a pronúncia dessas expressões é a mesma. Ter a ver significa ter ligação, e, para perceber que é o verbo ver, e não o haver, que deve ser utilizado nesses casos, basta trocar o “a” pelo “que”: a questão não tem nada que ver com você.

eduardo_calbucci