Dicas de Vestibular

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Qual a gramática correta? Veja como acertar na hora de escrever
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As mais diversas pessoas, cientes de que sou professor de língua portuguesa, procuram-me para sanar pequenas dúvidas. Vou tratar aqui de algumas muito frequentes. Quando se escreve “mal” com “l”? Quando com “u”? Em que circunstâncias “senão” se escreve separado? Como saber se há crase? Esse texto busca responder a essas perguntas com regras práticas, úteis para o trabalho cotidiano com a escrita.

 

1) Mal x mau

Esse é muito simples. Basta lembrar que “mal” é o contrário de “bem” e “mau” é o contrário de “bom”. A troca permite verificar qual é a forma correta. Façamos um teste: estaria certa a frase “Carlos é mau, não me surpreende que faça o mal”? Para averiguar, basta fazer a substituição: “Carlos é bom, não me surpreende que faça o bem”. Podemos concluir que a frase está correta, uma vez que “bom” e “bem” substituíram com êxito as formas “mau” e “mal”, respectivamente.

 

2) Senão x se não

Outra dúvida muito frequente é quando escrever “senão” junto ou separado. “Senão” é sinônimo de “do contrário”, já “se não” é sinônimo de “caso não”. Por exemplo, a frase “venha logo, senão atrasaremos” equivale a “venha logo, do contrário atrasaremos”, escreve-se, então, junto. Já na frase “Se não vier logo, atrasaremos”, deve-se escrever separado, como se confirma pela substituição: “Caso não venha logo, atrasaremos”.

 

3) Uso do acento indicador de crase: “Voltei à praia da minha infância” ou “Voltei a praia da minha infância”?

Muitos têm dúvida quanto ao uso do acento grave, indicador de crase. Esse caso é um pouco mais complexo do que os anteriores, abordá-lo de forma completa demandaria um espaço incompatível com esse texto. De qualquer forma, há uma regra prática que dá conta da grande maioria das situações. Como esse fenômeno envolve a fusão de uma preposição “a” e de um artigo feminino “a”, decorre desse princípio que só há crase antes de palavra feminina, capaz de aceitar o artigo “a”. Para ter certeza, basta trocar o substantivo feminino por um masculino. Se com a palavra masculina surgir “ao” (preposição “a” + artigo “o”), isso significa que, com a feminina, haverá crase.

Analisemos as frases do subtítulo, trocando a palavra “praia” por “parque”. Com o masculino, teríamos: “Voltei ao parque da minha infância”, o que nos permite concluir que o correto é “Voltei à praia da minha infância”. Surgiu “ao”, há crase.

Examinemos outro caso: “Contemplei a casa da minha infância” ou “contemplei à casa da minha infância”? Com um substantivo masculino, teríamos: “contemplei o jardim da minha infância”. Se com a troca pelo masculino não surgiu “ao”, então não há crase, e o correto é “contemplei a casa da minha infância”.

 

É isso, por hoje. Espero que as dicas tenham sido úteis e facilitem um pouco o trato diário com a língua portuguesa. Até!


Pescar palavras: os critérios que norteiam uma boa redação nos vestibulares
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Você já leu o livro “O velho e o mar”, de Ernest Hemingway? Basicamente, esse pequeno livro, com cerca de 100 páginas, escrito em 1951 –  que rendeu o prêmio Pulitzer ao autor – versa sobre a tentativa de Santiago, um experiente pescador, pegar nem que seja um único peixe depois de um longo período de insucessos. AVISO DE SPOILER! Sim, ele pesca o peixe. A luta dura três dias, mas, enfim, o peixe sucumbe à insistência do pescador.

Você pode estar agora com a sensação de que sabe tudo a respeito da obra e que já pode se gabar com seus amigos dizendo que leu um clássico. Não, inocente, você não sabe de nada… o mais importante ainda está por vir. O pescador pega um peixe de grandes proporções, um peixe espada, e seu pequeno pesqueiro talvez não suporte o peso do animal: ainda que cause instabilidades, amarrá-lo ao barco deve ser a solução mais adequada. Há, nesse instante, um novo problema a enfrentar: o mar está cheio de tubarões, famintos, desejando aquela presa fácil, imobilizada, pronta para ser consumida… Agora você vai ter de ler para saber se o que Hemingway conta é uma história que culmina em “sucesso” ou “fracasso”.

São dois livros em um só, duas diferentes temáticas, ainda que complementares: para ser um pescador competente, não basta apenas pegar o peixe, é preciso conduzi-lo a salvo à terra firme, determinar seu preço e comercializá-lo. Estamos diante de uma metáfora que certamente se aplica a vários momentos de nossas vidas: ainda que consigamos obter algo que muito desejamos, como fazer para conservá-lo sob nosso domínio? O que torna o livro atemporal e uma grande obra-prima não é o por ele versar sobre pescarias, mas o fato de ele transcender o ato cotidiano e discorrer sobre os limites da capacidade humana diante de uma natureza cruel, em que a sobrevivência depende de muita luta, numa infinita cadeia de perdas e ganhos. Ao se classificar um texto como “bom” não se leva em conta somente a temática, aquilo sobre o qual se discorre; a avaliação não está, portanto, ancorada apenas naquilo que se diz, mas também em como se planeja para dizê-lo: como o raciocínio é transmitido ao leitor.

 

A REDAÇÃO NO VESTIBULAR: OS CRITÉRIOS DE CORREÇÃO

 

A avaliação da redação produzida pelos candidatos, no vestibular, nunca é “subjetiva”:  existem critérios de correção que orientam os examinadores na hora de classificar os textos.  Cada instituição tem sua própria grade de correção e determina o peso de cada um dos critérios, mas atende, basicamente, às mesmas exigências:

  1. Adequação à proposta. Neste critério, avalia-se a capacidade de o candidato analisar, com maior ou menor profundidade, a questão posta em debate.  Dicas: Uma boa leitura da coletânea de textos e a postura crítica diante do tema são passos iniciais para a construção de uma redação eficiente.
  2. Adequação ao tipo de texto. A dissertação ainda é o tipo mais comum nos exames vestibulares, mas há universidades, como a PUC e a UNICAMP, que solicitam outros gêneros discursivos, como a carta, a narração, o resumo ou resenha, por exemplo. Na dissertação, o respeito à estrutura ortodoxa é fundamental:Dicas: Na introdução deixe claro o tema, seu posicionamento a respeito dele e crie uma contextualização pertinente. No desenvolvimento, ocupe-se em fazer o leitor a crer na validade de sua tese, mostrando claramente o raciocínio que o levou a defender determinada visão de mundo. A conclusão é o momento de encerrar a discussão: nunca coloque ideias novas e lembre-se:  apesar de o ENEM ser o único vestibular a exigir proposta de intervenção, essa forma de conclusão é aceita nas demais instituições. Caso não seja possível elaborar proposta, vale fazer uma síntese do raciocínio anteriormente exposto.
  3. Posicionamento crítico/argumentação. Neste quesito, avalia-se a capacidade de o candidato mobilizar conhecimentos e opiniões, de argumentar de maneira coerente, utilizando tipos de argumentos variados.  Dicas: atenção à clareza, evite generalizações e argumentos apoiados no senso-comum.
  1. Coerência. Grosso modo, a coerência é determinada pela compatibilidade entre as partes do texto (interna) e entre o texto e os dados da realidade (externa). Dicas: demonstre amplo conhecimento de mundo; cuide bem da adequação das seleções e das combinações lexicais.
  2. Coesão. A coesão se refere ao fato de como as palavras estão ligadas entre si dentro de uma sequência textual. As anáforas, as catáforas e as expansões lexicais são alguns dos expedientes coesivos. Dicas:  esteja atento à elaboração de frases, períodos e parágrafos do texto, bem como à utilização de conectores – conjunções – para o estabelecimento das relações lógicas e da progressão das ideias do texto.
  3. Recursos de linguagem/expressividade. Estes critérios são relativos à apropriação, por parte do candidato, dos recursos e dos mecanismos linguístico-discursivos. Dicas: atenção à correção gramatical, à utilização de figuras de linguagem e a outras estratégias linguísticas que confiram mais expressividade à sua produção textual.

 

Em suma, crie um projeto de texto, organize suas ideias, lute para defendê-las. Um bom texto é construído com muito trabalho, com muita transpiração. Você vai sentir sua mão doer ao ler “O velho e o mar”. Sei que parece estranho, mas isso você só vai entender depois de, verdadeiramente, conhecer o livro…

Boa prova a todos!

 


Precisamos adivinhar o tema da redação?
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O escritor Evgeny Chirikov em sua mesa, óleo de Ivan Kulikov, 1904.

Agora que já estamos perto do “clímax” do vestibular, temporada 2017, é bom ter em mente que grande parte das bancas escolhem os textos que servem de base a muitas questões ao longo do ano. O que isso significa? Indica que os temas a serem abordados ficaram em evidência, jogados aos nossos olhos. Mais interessante – e até mesmo mais importante – é perceber que as provas de redação, em sua maioria, seguem esse mesmo roteiro!

Momento decisivo: temos menos tempo agora (estamos na reta final), a ansiedade fica maior, o nervosismo tende a aumentar também… enfim, como se preparar e até mesmo se precaver para que não haja surpresa quando vir o tema? Parece bom evitar aquela situação desnorteante de olhar a folha da prova e pensar: “Por que não pensei em ler sobre isso? Justamente esse tema eu não faço a menor ideia! ”. São situações que nos desestabilizam, e estabilidade emocional é muito importante para vencermos a competição!

Achar que “videntes” de temas ou “adivinhos” consagrados pode ser bom negócio… acaba sendo uma escolha equivocada. Há inúmeros sites, blogs de professores, fora os palpiteiros de plantão (aí se encontram pais, irmãos mais velhos, tios…), que tentam dar certeza sobre qual será o tema do ENEM, FUVEST, UNESP etc. Entrar nessa “neurose” não é bom, embora seja interessante saber o que muitos pensam como tema provável.

Nesse contexto, uma boa saída é se antecipar: as bancas não decidem os textos das questões e a proposta de redação dias antes do exame – tudo já deve estar impresso, editado e revisado com antecedência -, principalmente se forem exames de aplicação em todo país. Assim podemos perceber que alguns meses antes tudo já está pronto, ou quase. Não se trata de adivinhar os temas, mas de pensar “próximo”, pois a banca é humana e vive no mesmo mundo em que nós vivemos!

Debulhar jornais, revistas semanais, portais de notícia etc. diariamente não é necessário – acredite! Ler um jornal uma vez por semana e uma revista semanal a cada quinze dias já é muito bom, pois conseguimos nos inteirar das novidades relevantes; e você não se sente “perdendo tempo” de fazer exercícios. Há também muitos bons blogs e feed de notícias para se usar em meios eletrônicos, que gozam da mesma validade dos jornais e revistas impressos.

Agora podemos perceber alguns bons ganhos indiretos: lendo diferentes veículos de mídia, que tenham posições diferentes (mais conservadores ou mais progressistas, por exemplo), nos dá maior abertura de reflexão sobre os mesmos fatos e temas. Viu que interessante? Adquirimos repertório, melhoramos o juízo crítico, conhecemos opiniões diferentes das nossas, tudo enquanto nos “preparamos” para não sermos pegos desprevenidos na hora da prova!

Ficou mais fácil do que dizer “eu te amo”, nestes “tempos líquidos”, não é mesmo?


Liu Xiaobo e os Direitos sem Nobel
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Liv Ullmann lê texto de Liu Xiaobo em cerimônia de entrega do Nobel da Paz 2010/ Foto: Marta B. Haga

O hospital da China Medical University passou por um dia extremamente agitado em 13 de julho. Nessa data, em decorrência do agravamento de um câncer de fígado, faleceu seu paciente mais famoso: Liu Xiaobo, militante chinês em defesa dos Direitos Humanos, ganhador do Prêmio Nobel da Paz em 2010.

Condenado a 11 anos de prisão por crimes de “subversão” contra o Estado chinês, Liu Xiaobo estava encarcerado desde dezembro de 2008.  Sua detenção se deu poucos meses após o encerramento das Olimpíadas de Pequim, quando a mídia internacional não mais focava sua atenção à China. Desde 1938, ano da morte em um campo de concentração nazista do jornalista alemão Carl von Ossietzk (que venceu o Nobel da Paz em 1935), Xiaobo foi o único premiado pelo comitê Nobel a morrer aprisionado.

O governo de Pequim acusava o militante de ser o líder da elaboração e divulgação do manifesto Charter 08, um documento assinado por mais de 300 opositores e intelectuais, que exigia reformas pró-democracia na China. Os embates entre o Estado chinês e Liu Xiaobo começaram ainda em 1989, momento em que  ele participa das manifestações que culminaram no Massacre da Praça da Paz Celestial. Desde então, ele havia sido preso outras três vezes.

Inspirado no Charter 77 da ex-Tchecoslováquia, que exigia aberturas políticas na antiga União Soviética, o Charter 08 consiste em uma carta exigindo reformas políticas ao Estado chinês e o compromisso com a Declaração Internacional dos Direitos Humanos da ONU, da qual a China é signatária. Segundo esse manifesto, o governo controlado pelo Partido Comunista Chinês deve arcar com compromissos de democratização e respeito aos Direitos Humanos assumidos em diferentes ocasiões nos anos de 1998, 2004 e 2008.

Na grande medida, a repercussão internacional da morte de Liu Xiaobo decorre dele ser um ganhador do Nobel da Paz. A credibilidade do prêmio já foi contestada por algumas vezes, como quando em 1973 o agraciado foi o Secretário de Estado dos EUA, Henry Kissinger, responsável por crimes de guerra no Oriente e golpes de Estado na América Latina. Mesmo a escolha do ex-presidente norte-americano Barack Obama (2009) foi marcada por controvérsias, uma vez que ele recebeu a premiação no mesmo momento em que os EUA atacavam militarmente países do Oriente Médio.

A escolha da premiação é decidida por um comitê formado por parlamentares da Noruega. Trata-se de uma deliberação importante simbolicamente, pois permite que determinadas causas humanitárias adquiram maior visibilidade. Entretanto, quando optam por premiar alguma liderança de oposição envolta em lutas humanitárias, curiosamente escolhem esses chamados “dissidentes” de alguma parte do mundo em que os governos não sejam alinhados politicamente com os EUA ou com a Europa.

Há uma infinidade de “dissidências” políticas em países cujos governos são completamente alinhados a Washington e à União Europeia. A premiação de cerca de um milhão e meio de dólares (valor concedido a quem recebe o Nobel da Paz) certamente seria de grande auxílio na defesa dos Direitos Humanos. Além, obviamente, na obtenção de uma notoriedade internacional para suas causas.

Haveria algum constrangimento ao presidente dos Estados Unidos se eventualmente a escolha do comitê norueguês fosse a norte-americana Opal Tometi, uma das fundadoras do movimento antirracista Black Lives Matter? Seria problemático ao governador do Estado de São Paulo se a escolhida fosse Débora Maria da Silva, fundadora do movimento Mães de Maio, que combate as ações criminosas cometidas pela Polícia Militar sobre populações periféricas?

Independentemente de premiações, globalmente a situação dos direitos humanos no início do século XXI adquire uma urgência aflitiva. Na Síria, ou em Gaza, nas fábricas da Foxconn da China, em maquiladoras mexicanas, na Paris dos imigrantes africanos, na São Paulo dos haitianos. Em qualquer parte do mundo há enormes contingentes populacionais sem acesso a esses direitos.

O que vivenciamos, infelizmente, é a derrota de Liu Xiaobo no convívio social diário de nossas sociedades. Assistimos cotidianamente ao fortalecimento de organizações políticas que sequer reconhecem a premissa de que todos os seres-humanos devem possuir direitos. E considerando as semelhanças entre nossa época e a primeira metade do século XX, aquele tempo também estava repleto de forças políticas que desprezavam os pressupostos da Charter 08… Não funcionou muito bem.


É preciso ser um bom leitor: texto lido é texto grifado!
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Em breve, terá início a maratona dos vestibulares. Durante as provas, os candidatos estarão diante de textos de diferentes naturezas: narrativos, descritivos, dissertativos, injuntivos ou instrucionais, apresentados sob diversas formas: verbais, não-verbais e sincréticos. E eles estarão presentes em diversas situações de prova: nos enunciados, nos textos para análise, nas legendas das fotos e gráficos, na coletânea de textos da prova de redação, nas instruções gerais da prova…

Os exames vestibulares são, antes de tudo, provas de leitura. Isso significa que serão selecionados os melhores leitores, e ser um bom leitor significa cumprir instruções, fazer abstrações, compreender com profundidade os textos. Quantas vezes o candidato não errou uma questão de matemática, de biologia ou mesmo de geografia por ter feito uma leitura equivocada ou por não ter compreendido o comando de um enunciado?

Para fazer uma leitura adequada, é preciso levar em conta algumas características importantes de um texto:

a) A condição de produção: é necessário compreender os valores e os significados apresentados no texto, de acordo com o contexto de produção, ou seja, o momento histórico, a cultura em que foi produzido.

b) As relações interdiscursivas: há links entre o texto e a realidade que o cerca; é desejável identificar, na medida do possível, as relações interdisciplinares e intertextuais.

c) Os objetivos do enunciador: o texto pode ter a função de retratar uma realidade, de informar, de levar alguém a crer em determinada construção de “verdade”, de levar alguém a agir de determinada maneira, dentre outras.

d) A relação de interlocução: a relação entre o enunciador e o enunciatário, ou seja, entre o produtor do texto e o leitor determina os valores em jogo, a linguagem utilizada e até mesmo o gênero discursivo.

e) Os mecanismos e as estratégias linguísticas de construção: as escolhas lexicais, bem como as diversas combinações que podem ser produzidas, determinam a construção de significados e os efeitos de sentido do texto.

Vejamos como uma questão da Fuvest avalia a capacidade de leitura por meio do seguinte texto:

Tornando da malograda espera do tigre, alcançou o capanga um casal de velhinhos, que seguiam diante dele o mesmo caminho, e conversavam acerca de seus negócios particulares. Das poucas palavras que apanhara, percebeu Jão Fera que destinavam eles uns cinquenta mil-réis, tudo quanto possuíam, à compra de mantimentos, a fim de fazer um moquirão*, com que pretendiam abrir uma boa roça.
— Mas chegará, homem? perguntou a velha.
— Há de se espichar bem, mulher!
Uma voz os interrompeu:
— Por este preço dou eu conta da roça!
— Ah! É nhô Jão!
Conheciam os velhinhos o capanga, a quem tinham por homem de palavra, e de fazer o que prometia. Aceitaram sem mais hesitação; e foram mostrar o lugar que estava destinado para o roçado.Acompanhou-os Jão Fera; porém, mal seus olhos descobriram entre os utensílios a enxada, a qual ele esquecera um momento no afã de ganhar a soma precisa,que sem mais deu costas ao par de velhinhos e foi-se deixando-os embasbacados.
José de Alencar, Til.
* moquirão: mutirão (mobilização coletiva para auxílio mútuo, de caráter gratuito).

Considerada no contexto, a palavra sublinhada no trecho “mal seus olhos descobriram entre os utensílios a enxada” (L. 17-18) expressa ideia de
a) tempo.
b) qualidade.
c) intensidade.
d) modo.
e) negação.

Essa questão versa sobre a maneira como escolhas lexicais do autor do texto contribuem para a criação dos sentidos pretendidos. No texto,a palavra “mal” foi empregada com o valor temporal, como sinônimo da expressão “assim que”, estabelecendo quase uma simultaneidade entre a descoberta dos utensílios pelos “olhos” de Jão Fera e o ato de este dar as costas aos velhinhos e ir embora.

Sobre esse mesmo texto, uma nova questão:

As práticas de Jão Fera que permitem ao narrador classificá-lo como “capanga” assemelham-se, sobretudo,às da personagem citadina do
a) valentão Chico-Juca, nas Memórias de um sargento de milícias.
b) malandro Prudêncio, nas Memórias póstumas de Brás Cubas.
c) arrivista Miranda, em O cortiço.
d) agregado Zé Fernandes, em A cidade e as serras.
e) soldado amarelo, em Vidas secas.

Desta vez, o vestibular elaborou um tipo de questão em que, por meio dos efeitos semânticos das palavras, verifica-se a construção da imagem dos personagens: segundo o dicionário Aurélio, capanga é um “valentão que se coloca ao serviço de quem lhe paga”. Chico-Juca é um arruaceiro conhecido por arrumar confusões, ser muito violento e agressivo, sendo contratado por Leonardo Pataca para promover a desordem na festa da Cigana. Jão Fera, em Til, é um famoso matador de aluguel. Ambos, portanto, têm comportamentos que permitem incluí-los na categoria de capangas.

Por fim, algumas recomendações:

• O tempo é restrito, no entanto leia devagar, com atenção para não ter de repetir a leitura.
• Texto lido é texto grifado: grife partes importantes dos textos de apoio, termos de destaque e todos os comandos do enunciado.
• A gramática está a serviço do texto: atenção às relações semânticas estabelecidas por meio dos conectores sintáticos.

Boa leitura e boa prova!

 


Redação: comece a se preparar desde já
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*Texto por Sérgio Paganim

Como você está se preparando para enfrentar os exames neste ano? Quais são as suas estratégias para tornar mais eficientes os seus estudos? Assistir atentamente às aulas, anotar tudo o que seus professores falam, elaborar resumos, fazer listas de exercícios e simulados, organizar estudo em grupo, frequentar aulas particulares, estudar por meio de aplicativos via internet ou de provas de anos anteriores, devorar livros de teoria para aprofundamentos… Além de dominar o conhecimento, aprender a aprender é uma das habilidades fundamentais para o sucesso nos vestibulares e na vida acadêmica que está por vir.

E a redação? Como é sua preparação para o exame mais trabalhoso e “líquido” dos exames vestibulares e do Enem? Você já deve ter ouvido muito conselho duvidoso, muitas “dicas” para mandar bem na redação: buscar informações que possam ajudar a “adivinhar” o tema, ler diariamente jornais e revistas para tentar se manter atualizado, copiar irrefletidamente editoriais de jornais de grande circulação, “caprichar” no vocabulário para impressionar o examinador do texto com palavras rebuscadas…

Mas como é possível melhorar mesmo a qualidade da análise que você fará sobre o tema proposto para a discussão? É verdade que ler muitas notícias do cotidiano e usá-las no texto pode dar a ele ares de atualidade. Mas nem sempre é fácil transformar um fato em argumento: quantas vezes você já não experimentou a dificuldade de ajustar à reflexão de seu texto, por exemplo, o que leu sobre a escassez de água nos reservatórios do Sudeste?

Os textos opinativos que você encontra em jornais e revistas (impressos ou digitais) podem ser uma valiosa maneira de desenvolver sua capacidade de argumentar com eficiência: programe-se para ler, diariamente, um editorial, ou um artigo de opinião, ou o comentário de um jornalista publicado em um blog, ou uma entrevista em que uma personalidade expõe sua visão de mundo, um pequeno ensaio, por meio do qual você acompanhe as interpretações que podem ser feitas da realidade. Em meio ao oceano de informação e opinião que banha a imprensa, escolha um texto opinativo para dissecar diariamente, para reconhecer que argumentos foram acionados por seu autor para sustentar sua reflexão, que significados ele enxerga por trás dos fatos que analisa.

A leitura regular de gêneros textuais opinativos vai desenvolver sua competência argumentativa, sua capacidade de direcionar informações e conhecimentos para sustentar seus pontos de vista. Seja imitando os procedimentos argumentativos dos textos, seja discordando deles, você se qualifica para enfrentar qualquer tema de redação – desde que, além dessas leituras programadas, você também redija com regularidade. A sabedoria popular há muito apregoa que água mole, em pedra dura, tanto bate até que fura.

 


10 dicas e 10 perguntas para quem vai fazer redação no vestibular
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Dicas de Vestibular

*por Humberto Cosentine

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O dia a dia de quem está se preparando para grandes vestibulares, especialmente aqueles de segunda fase, é recheado de incertezas, especialmente quanto à redação. Elencamos 10 dicas a partir de dúvidas frequentes de alunos e 10 perguntas fundamentais para guiar você na hora da produção do texto. Veja a seguir.

Dicas:

1. Leia bem a proposta.  Ela é uma instrução.  Perceba detalhes.  Siga-a respeitosamente. Procure incluir em seu texto as palavras-chave do tema.

2. Leia bem a coletânea.  Mergulhe em seus textos em busca de repertório que o auxilie a argumentar em favor de sua tese/opinião. Marque tudo que for interessante. Anote. “Texto lido é texto riscado” (Lucy).

3. Defina sua tese.  Ela funciona como uma espinha dorsal orientadora dos seus argumentos.  Se não há tese, os argumentos defenderão o quê?

4. Tendo a tese e os argumentos, pronto! Você tem um projeto de texto.

5. Introdução: apresenta e envolve.  Intro (dentro) + dução (conduzir) = levar (o leitor) para dentro. Inclui uma contextualização/problematização e uma indicação de tese (ou a tese).
Obs.: há outros modelos, mas esse é mais fácil. Ah! Precisa ser bem clara para atrair o leitor.

6. Desenvolvimento:  é a argumentação, a defesa da tese/opinião. Se bem que todas as partes do texto são argumentativas, todas visam convencer o leitor da validade da tese.

7. Conclusão: faça referência aos pontos principais da argumentação e, a partir disso, realize uma espécie de reflexão, muito atrelada aos argumentos (não é para sair voando) e relacionada à tese.

8. Conclusão com intervenções: escolha dois ou três agentes sociais, estruture suas ações, concretize-as, detalhe-as.  Não seja vago ou genérico.  Além disso, relacione-as aos problemas colocados nos argumentos. Esse casamento é muito importante.
Obs.: intervenções não são exclusividade do Enem, você pode incluí-las em redações de qualquer vestibular, desde que pertinentes ao tema analisado.

9. Para construir o texto, você precisa ter dentro de si um pedreiro, um engenheiro, um arquiteto e um supervisor. O arquiteto faz o projeto de texto. O engenheiro decide qual repertório (da coletânea ou próprio) utilizar em cada parágrafo.  E o pedreiro transforma o repertório escolhido em argumentos, com a escolha de palavras (tijolos) e conexões/pontuação (cimento). O supervisor fica o tempo todo verificando se há falhas no trabalho dos três.

10. Evite dialogar com o leitor (você …), usar a primeira pessoa do singular (eu …), escrever frases muito longas, parágrafos com apenas uma frase, argumentar ou incluir informações novas na conclusão, repetir a mesma palavra muitas vezes, pôr vírgula entre sujeito e predicado, usar “onde” para se referir a algo que não seja lugar, quebrar paralelismo sintático (pesquise), usar conectivos inadequados ao contexto.

Perguntas que você deve fazer a você mesmo enquanto produz sua redação:

1. Essa palavra é adequada ao que quero expressar?
2. As frases estão completas?
3. Os parágrafos têm foco?  Estão apoiando a tese?  Estão interligados, como um passo levando ao outro?
4. A tese está clara?
5. Estou respeitando mesmo a proposta?
6. Usei a coletânea pelo menos um pouco, ou como pede a proposta?
7. A conclusão passa a ideia de fecho/fim?
8. Estou deixando bom espaço para a intervenção? (+/- 9 linhas) (Enem)
9. Estou controlando bem o tempo?
10. Estou nervoso demais? (Se sim, vá ao banheiro e faça algumas caretas para o espelho).

Boa redação!

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Veja 4 erros comuns na interpretação de questões no vestibular
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Por Ian Oliverpen-writing-notes-studying

Sem dúvida, a interpretação de textos é a categoria que mais tem espaço nos vestibulares modernos. Não somente pelas questões desse tipo ganharem cada vez mais espaço na prova de Português, como também por ganharem espaço em todas as outras disciplinas. Por isso, é fundamental que essa parte seja estudada com profundidade e algumas orientações sejam seguidas. Em questões de múltipla escolha, as bancas seguem um padrão relativamente estável para produzir alternativas falsas. Em geral, elas são redigidas com base em erros de leitura comumente cometidos pelos alunos. Entre os mais habituais, estão:

1) Generalização:

Basicamente, a generalização implica ampliar artificialmente o alcance de uma afirmação no texto, atribuindo a ela um efeito totalizador não pretendido pelo autor. Se o texto não generalizou, cuidado. Você pode estar diante de uma alternativa falsa. Por isso, tenha cautela na leitura dos itens da questão: expressões totalizadoras como “tudo”, “todos”, “sempre”, “sem exceção”, entre outras, podem produzir alternativas falsas.

2) Embaralhamento de ideias:

Outro modo de criar alternativas falsas é estabelecendo relações impróprias entre ideias do texto. A estratégia é simples: as bancas escolhem duas ideias contidas no texto e, nos itens falsos, estabelecem entre elas uma relação que o próprio texto não estabeleceu. Cria-se, assim, uma falsa relação, que pode ser de causa e consequência, de comparação, de oposição, entre outras. É indispensável, portanto, atenção redobrada nas relações entre ideias estabelecidas no texto. O embaralhamento de ideias muitas vezes produz itens falsos muito sedutores para os alunos pelo fato de as ideias estarem presentes no texto, embora a relação entre elas esteja equivocada.

3) Descontextualização:

Um importante recurso a ser usado, dentro da interpretação de texto, é reconhecer o sentido de uma palavra dentro do contexto em que ela aparece. Uma das formas de distorção de leitura e, portanto, de produção de alternativas falsas, é alterar o significado que uma palavra tem num determinado contexto, atribuindo a ela um sentido distorcido (o qual pode até ser mais comum isoladamente mas, naquele determinado contexto, era descabido).

4) Intromissão Discursiva:

Talvez a distorção de leitura mais comum seja a intromissão discursiva. Basicamente, o candidato coloca um discurso do seu repertório pessoal acima da superfície textual e acaba marcando uma alternativa, não porque ela está presente no texto, mas porque ele – candidato – concorda com ela. Desse modo, o aluno tem tamanha convicção de uma ideia, que acaba intrometendo-a no texto. As bancas muitas vezes se aproveitam dessa intromissão, criando alternativas com as quais a maioria dos candidatos concorda, embora não tratem de ideias contidas no texto. Por isso, atenção: questões de interpretação de texto são resolvidas a partir do texto, e não das ideias que você gostaria, por convicção ideológica de qualquer espécie, que estivessem no texto.

Bom estudo!

Ian Oliver