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Os 100 anos de Nelson Mandela
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Nelson_Mandela

Esse ano comemora-se o centenário de nascimento de Nelson Mandela, um dos maiores líderes do século XX. Por esse motivo, o assunto pode aparecer nos principais exames vestibulares do país. Mas, antes de falar de Mandela, vamos contextualizar um pouco e pensar a história da África do Sul.

Esse país africano, com uma enorme multiplicidade de grupos étnicos nativos, foi, ao longo do século XIX, colonizado por brancos europeus, particularmente ingleses e holandeses. Aos poucos, os brancos foram controlando a economia e as estruturas políticas e criaram um regime segregacionista conhecido como Apartheid a partir de 1948. A característica mais importante do Apartheid é que transformava o racismo e o segregacionismo em uma política de Estado totalmente legalizada.

Mandela nasceu em julho de 1918, membro da etnia Xhosa, frequentou a escola e mais tarde a faculdade de Direito. Ainda na juventude, Mandela foi militante estudantil na luta contra a política segregacionista e, posteriormente,  uniu-se ao Congresso Nacional Africano, conhecido também pela sigla CNA (ou em inglês African National Congress, ANC). O CNA é um movimento e um partido político sul-africano que existe até hoje. No início, Mandela teve uma militância política pacífica, porém, com o passar dos anos, e, principalmente após episódios de violência da polícia sul-africana contra os negros, ele aderiu à luta armada.

Em 1961, Mandela tornou-se líder da Umkhonto we Sizwe (“Lança da Nação” ou MK), espécie de braço armado do CNA. Nessa oportunidade, passou por treinamento paramilitar em vários países com o objetivo de levar adiante a resistência armada contra o governo branco da África do Sul. Posteriormente, acabou sendo preso, levado a julgamento e passou 27 anos na prisão.

Durante os anos de cárcere, Mandela foi se tornando um símbolo da resistência na luta contra o Apartheid. Os militantes na África do Sul, além de movimentos e campanhas no mundo inteiro, pediam a libertação do grande líder sul-africano. Em 1990, em meio a pressões internacionais e após intensas negociações, o presidente Frederik de Klerk libertou Nelson Mandela. Os dois líderes ganharam o Prêmio Nobel da Paz em 1993.

Aos 75 anos, Nelson Mandela foi eleito presidente e governou a África do Sul entre os anos de 1994 e 1999, sendo considerado o principal responsável pela transição para o fim do regime segregacionista e a construção de um novo país. O governo de Mandela ficou marcado pela reconciliação interna e externa, assim ganhando o respeito internacional.

A luta contra o Apartheid teve inúmeros movimentos internos e externos, além de integrantes ilustres como Steve Biko, famoso ativista sul-africano, e o arcebispo Desmond Tutu, também ícone da resistência na África do Sul. Porém, Nelson Mandela, por sua trajetória de dificuldades e principalmente pela forma como conduziu o país, sem revanchismos, acabou se tornando uma referência mundial e um dos principais líderes do século XX. Morreu aos 95 anos, em 2013, na África do Sul.

Lucas_Seco


130 anos de Lei Áurea: contexto histórico e atual da abolição
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Em 2018, o povo brasileiro comemora 130 anos da abolição da escravatura. A Lei Áurea, assinada pela princesa Isabel enquanto regente do trono, em 13 de maio de 1888, decretou o fim de todas as atividades escravistas do Brasil.

Há muito o que se analisar sobre esse acontecimento. O Brasil foi o último país americano independente a abolir a escravidão, e, diferentemente do que aconteceu em outros lugares, o fim do trabalho escravo no país decorreu de um processo complexo. A história comparativa nos permite compreender com mais eficiência o fim da escravidão brasileira. No Haiti, por exemplo, a abolição da escravidão ocorreu em meio a um cenário revolucionário – a Revolução de São Domingos, caracterizada pela luta dos haitianos pela independência do país e pelo fim do trabalho compulsório. Líderes como Toussaint Louverture e Jean Jacques Dessalines conduziram o povo haitiano em busca de sua liberdade. Outro caso que merece destaque foi o dos Estados Unidos. Em meados da década de 1860, o presidente Abraham Lincoln assinou a décima terceira emenda à constituição, que decretou o fim da escravidão em território norte-americano, fato que contribuiu para uma violenta guerra civil (Guerra de Secessão). Ao final do conflito, com a vitória dos Estados do Norte, de direcionamento político liberal, o fim do trabalho escravo foi consolidado em todo o país.

No Brasil, a abolição se deu através de um processo conduzido pelo Estado, que respondia à pressão inglesa, ao movimento abolicionista e às constantes manifestações e rebeliões dos escravizados do país. É importante destacar também que o regime escravista tornava-se cada vez mais anacrônico, uma vez que a economia brasileira passava por um processo de modernização. A circulação de parte do capital oriundo das exportações do café estimulava diversas atividades nos setores produtivos e de comércio, e o escravismo era um entrave para o desenvolvimento dessas ações econômicas. No entanto, a monarquia calculava que o fim radical da escravidão no país poderia causar atritos políticos com os setores escravista e mais conservadores da sociedade. Assim, buscando amenizar tais conflitos, o Estado passou a conduzir de forma gradual o fim da escravidão brasileira.

Foram várias as ações políticas na direção da liberdade dos escravizados: a Lei Eusébio de Queirós, de 1850, reprimiu e posteriormente extinguiu o tráfico para o Brasil. A partir de então, a escravidão entrou em decadência, e o número de trabalhadores livres cresceu significativamente. O movimento abolicionista, organizado posteriormente e que agregava lideranças como André Rebouças, Luís Gama, Castro Alves, Francisco de Paula Brito, Chiquinha Gonzaga, Joaquim Nabuco, Augusta Generoso Estrella, Leonor Porto, entre outros e outras, passou a pressionar o governo, a conscientizar a sociedade sobre o tema da abolição e a ajudar escravizados em diversas questões. Nesse cenário, ocorreram importantes conquistas jurídicas como a Lei do Ventre Livre de 1871 e a Lei do Sexagenário de 1885. Em termos numéricos, essas leis não trouxeram resultado prático tão significativo, mas a possibilidade da liberdade para recém-nascidos e escravizados mais velhos trouxe um estímulo maior para a luta pela abolição.

O projeto da Lei Áurea foi formalmente apresentado ao poder legislativo por Rodrigo Augusto da Silva e debatido pelos deputados e senadores entre os dias 10 e 13 de maio de 1888. Naquele momento, o governo estava sendo conduzido pela herdeira Dona Isabel, que regia o trono enquanto seu pai, o imperador Dom Pedro II viajava. É fato que o regime monárquico brasileiro sofria severos abalos naquela década e os republicanos, cada vez mais fortes e organizados, estavam se aproximando do poder. Muitos previam que a mudança do regime monárquico para o republicano se daria logo após a morte do velho e apático imperador Dom Pedro II. Assim, a princesa Isabel se via em um labirinto político. E foi nesse cenário que a herdeira passou a articular pela aprovação da Lei Áurea. A proposta da abolição estava cada vez mais popular, e protagonizar a libertação dos cativos poderia trazer fôlego à postulante a imperatriz. Portanto, no dia 13 de maio de 1888, motivada pela crise política, por pressão dos abolicionistas, da sociedade, da Inglaterra e por questões pessoais, a princesa Isabel assinou a Lei Áurea, que decretou o fim do trabalho escravo no país.

O resultado político da Lei foi bastante ambíguo para Isabel. Se por um lado, a princesa foi ovacionada pelo povo brasileiro como a redentora do país, por outro perdeu o último apoio contundente ao regime monárquico: os escravocratas conservadores, que passaram gradativamente a apoiar o movimento republicano, que não foi enfraquecido pela abolição. Pouco mais de um ano depois, a monarquia caiu e a República foi proclamada.

Para os então antigos escravos, a liberdade batia à porta, mas junto com ela toda uma tradição de violência, preconceito racial e marginalização. Pouco foi feito para se tentar integrar os negros à sociedade. Para esse grupo social, faltavam educação, emprego, alimentos, saúde e inclusão social. A Lei Áurea marcou o fim da escravidão e o início da luta pela igualdade. Desde então, muito já se conquistou nesse quesito, mas ainda há muito o que se conquistar no que concerne à cidadania, à dignidade e ao respeito.


Carnaval e o Grito Possível
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Desde as primeiras celebrações do carnaval propriamente dito no Brasil, ainda no século XIX, as clivagens sociais se fizeram presentes, com elites regionais tentando impor seus padrões civilizacionais eurocêntricos sobre festas populares moldadas acentuadamente por culturas afro-brasileiras, seja no frevo de Pernambuco, seja nos blocos da Bahia, assim como nos sambas do Rio de Janeiro e de São Paulo.

Historicamente, as celebrações do carnaval remetem à Roma Antiga, com rituais festivos marcados pela subversão da ordem entre escravos, plebeus e outros grupos sociais. Na Idade Média, a hegemonia da Igreja Católica sobre o continente europeu não impediu que essas festividades ocorressem. O relaxamento da ordem e dos costumes foi acompanhado de perto por membros da hierarquia eclesiástica, que pretendiam coibir (nem sempre com muito sucesso) extravagâncias excessivamente pecaminosas.

O Entrudo foi uma dessas celebrações medievais, realizadas também em Portugal, que aportaram no Brasil Colonial a partir do século XVIII. Já no século XIX, no Rio de Janeiro, diferentes classes sociais brincavam nessas festas, organizando sociedades carnavalescas que desfilavam pelas ruas em blocos temáticos com foliões fantasiados ou meramente mascarados. A algazarra popular rompeu as pretensões de que esses desfiles fossem simplesmente uma cópia oca dos carnavais de Paris ou Veneza. No Entrudo, foram comuns agitações motivadas por gente que arremessava baldes de água na multidão ou algum líquido mais viscoso de origem duvidosa.

A associação dos carnavais com determinados gêneros musicais regionais (como foi feito com o samba, o maracatu, o frevo e outros ritmos assentados em ancestralidades afro-brasileiras) iniciou-se no século XIX, mas ganhou força no século XX, a partir de Getúlio Vargas e seus intentos em moldar uma pretensa identidade nacional.

Ao longo dos séculos XX e XXI, o crescente poder dos oligopólios das corporações vinculadas aos meios de comunicação, juntamente com sucessivos governos, fizeram com que os carnavais fossem gradativamente utilizados para consolidar a fantasia de um país moldado pela alegria eterna, com um povo feliz, sem espaço para conflitos étnicos, sociais e econômicos.

Acompanhando essa ideia artificial, consolidou-se ainda a hipersexualização dos corpos (principalmente de mulheres negras), reforçando estereotipias de origem coloniais, nas quais, se “não existe pecado ao sul do Equador”, quaisquer tipos de abusos tendem a ser tolerados.

Desde suas primeiras celebrações no Brasil, as festividades dos carnavais envolvem diferentes formas de se apropriar do espaço público. Por um breve momento, esse espaço deixa de ser determinado pelo racionalismo e pelas lógicas do universo do trabalho. Ocorre a ascensão do lúdico contestatório, com autoridades sendo detratadas através do riso, do canto, da dança e da música, em rituais de subversão que rompem com códigos morais imperantes ao longo do ano. São aspectos do cotidiano que não esperam apenas o carnaval para aflorarem, mas que, nesse momento, passam a se mobilizar conjuntamente em função de uma mesma catarse multifacetada.

Essas inversões da ordem são alvos de constantes esforços para silenciá-las. Autoridades governamentais, forças policiais, grupos religiosos contrários às celebrações carnavalescas, corporações dos meios de comunicação que mercantilizam as festas de todas as formas possíveis, enfim, as mais variadas forças atuam para enclausurar o carnaval em determinados confinamentos nos quais hierarquias se sobreponham ao espontâneo e ao imprevisível.

Os carnavais no Brasil, portanto, desde suas origens, carregam essa tensão de, simultaneamente, confrontarem e dialogarem com os grupos que preferem a ordem e o silêncio. Suas subversões são um grito. E, mesmo que simbólico, é o grito possível de quem não cabe no camarote do sambódromo, nem no abadá customizado, mas prefere dançar com a baderna no meio da rua. Afinal, de que serviriam os quarenta dias de resguardo e contenção entre a Quarta-feira de Cinzas e a Páscoa se não fossem excessos carnavalescos?


Fim da Grande Guerra completa 100 anos: Conheça os detalhes
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– Professor, por que chamaram a Primeira Guerra Mundial de “Primeira”? Já sabiam que haveria uma Segunda?

 

No dia 11 de novembro de 1918, foi assinado o Armistício, o cessar fogo que encerrou a Primeira Guerra Mundial, depois de pouco mais de quatro anos de uma matança sem precedentes. Quando começou, a “guerra para acabar com todas as guerras” não foi chamada de “Primeira”, mas simplesmente de a “Grande Guerra”. A sofisticação dos armamentos, o grande número de países participantes e a mobilização em larga escala de milhões de soldados, desde os primeiros dias do conflito, deixaram claro que essa guerra seria maior do que todas as anteriores.

Foi uma guerra da era industrial, na qual ocorreu a mobilização das economias nacionais,  seja através da conversão das indústrias civis para bélicas, seja através da mobilização tecnológica em busca da “arma decisiva”. O resultado foi o prolongamento do conflito e a mobilização cada vez maior de potencial humano, provocando elevada mortalidade.

Ao final do conflito, os países Aliados, notadamente França e Inglaterra, com a participação dos Estados Unidos a partir de 1917, derrotaram as Potências Centrais, basicamente a Alemanha e seus associados, como Áustria e Turquia. Seguiu-se a imposição do Tratado de Versalhes, assinado em 1919, por meio do qual ingleses e franceses se vingaram dos alemães, fazendo pesadas exigências em termos de indenizações financeiras, compensações materiais e territoriais pelos danos infligidos durante o conflito. O Tratado de Versalhes gerou um forte desejo alemão de vingança, rapidamente transformado em bandeira política por partidos radicais conservadores, como o jovem partido nazista. A partir de então, tornou-se claro que haveria uma revanche, e a Grande Guerra seria seguida de uma segunda Grande Guerra.

Nos vestibulares e no ENEM, a Primeira Guerra Mundial costuma ser abordada de duas formas principais:

– Pedindo-se que se apontem suas causas (desdobramento do expansionismo/imperialismo europeu na era industrial) e suas consequências (mudanças no mapa europeu, revanchismo alemão, desequilíbrio econômico);

– Pedindo-se que se identifique o impacto de novas tecnologias na guerra, enquanto experiência social a que dezenas de milhões de pessoas foram submetidas.


Por que a Constituição é fundamental para a organização da sociedade?
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Uma constituição pode ser considerada um conjunto de normas e leis que regem um Estado. A lei máxima regulamenta e limita as relações entre os poderes, ao mesmo tempo em que estabelece os direitos e deveres dos cidadãos. Dessa forma, o texto constitucional mostra-se fundamental para a organização da vida em sociedade. As constituições podem ser promulgadas, quando contarem na sua elaboração com a participação popular por meio de representantes eleitos; ou outorgadas, quando forem impostas por meio de forças políticas sem legítima participação popular. Assim, podemos perceber que uma constituição promulgada é fundamental para construção de um Estado democrático de direito.

Alguns países tiveram várias Constituições, outros um único texto dessa natureza. Os Estados Unidos, por exemplo, têm apenas uma Constituição em sua história, que entrou em vigor desde 1787. O Brasil, por sua vez, teve sete Constituições (1824, 1891, 1934, 1937, 1946, 1967 e 1988), sendo que alguns juristas consideram uma emenda constitucional realizada em 1969 durante o regime militar como sendo mais uma constituição, o que elevaria para oito o número de constituições na história do nosso país.  O que esse número de constituições demonstra? Tal histórico deixa claro um passado de instabilidade política. O Brasil nasceu monárquico, virou república e, ao longo do tempo, teve percalços que levaram a troca de governos e Constituições, sendo que algumas foram outorgadas e outras promulgadas.

De qualquer forma, um olhar mais específico para nossas Constituições nos leva a perceber certa evolução. A primeira Constituição do Brasil (1824), ainda no período monárquico, previa eleições para alguns cargos, porém o sistema era censitário, oportunidade em que o critério de renda determinava a participação política. Com a proclamação da República, veio uma nova Constituição em 1891 que estabelecia o fim do voto censitário, mas excluía analfabetos, mulheres, entre outros perfis. Dessa forma, a maior parte da população continuava excluída da participação política. Além dessa exclusão, no texto constitucional de 1891, o voto era aberto, o que favorecia a fraude eleitoral.

Com a Constituição de 1934, finalmente o voto feminino foi inserido no texto, juntamente com o voto secreto. Em 1937, a criação da ditadura do Estado Novo levou à outorga de uma nova constituição apelidada de “polaca”, a qual garantiu a centralização do poder na figura do presidente Getúlio Vargas. O fim do Estado Novo, em 1945, garantiu a redemocratização do país e uma nova Constituição promulgada em 1946, texto que teve validade até a instalação do regime militar (1964 – 1985). Com a criação do regime de exceção, veio uma nova Constituição em 1967; e, na sequência, uma emenda constitucional em 1969, considerada por muitos juristas, como já informado, uma nova Constituição, que fora outorgada. Durante esse período, a participação política foi restringida; pois, para muitos cargos públicos, entre eles o de presidente da república, não era prevista a participação direta dos cidadãos brasileiros.

Com o fim do Regime Militar em 1985, abriu-se caminho à redemocratização e foi convocada uma Assembleia Constituinte em 1986, que promulgou uma nova Constituição em 1988. A Constituição Federal de 1988 foi apelidada de “Constituição Cidadã” e é considerada a mais democrática da história do Brasil. O referido e atual texto constitucional garantiu o voto direto e secreto, o direito ao voto para analfabetos, a independência e a harmonia entre os poderes. Além disso, a Constituição Federal de 1988 ampliou os direitos e garantias sociais e fundamentais, estabeleceu maior autonomia para os Municípios, entre outros benefícios.

Mas uma pergunta deve ser feita: será que, com a Constituição de 1988, podemos entender que finalmente a democracia está consolidada?

A história do Brasil mostra um longo histórico de instabilidades, avanços e retrocessos. Certamente, uma visão mais atenta da nossa trajetória como país permite perceber, apesar dos percalços, um caminho de evolução, sobretudo em termos de direitos e garantias fundamentais, de cunho individual e coletivo. Evidente que tal conclusão não afasta, por completo, problemas, instabilidades ou retrocessos; mas, garante que o respeito à Lei, à Constituição e a todas as instituições republicanas é dever de todo cidadão brasileiro, e mostra-se fundamental para que continuemos a buscar a melhora das relações em sociedade.


Saber ver um filme
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Cinema Paradiso (1988)/ Divulgação

– Professor, você pode me indicar um filme a respeito do assunto da aula de hoje?

Essa pergunta é recorrente, particularmente para professores de História.

Gladiador (2000) / Divulgação

Se o aluno enxergar o filme como uma espécie de atalho para aprender o assunto, a película terá pouca utilidade. Um filme como Gladiador (EUA, 2000), por exemplo, não vai substituir a leitura sobre os impactos da política do “pão e circo” na Roma Antiga. Mas ele pode ser motivador de leituras sobre as inspirações do diretor, das distâncias e proximidades entre a ficção cinematográfica e a realidade romana. Nesse caso, ele cumpre papel importante na formação de qualquer estudante.

Aprender a lidar com as leituras cinematográficas da História pode ser uma ferramenta para compreender as diferentes representações do passado. Como diz uma canção de Tom Jobim, os olhos não podem ver as coisas bonitas que os olhos não sabem ver. Saber ver um filme é realizar um estudo interdisciplinar. Em busca de compreender, o aluno irá usar conhecimentos de estrutura narrativa – obtidos nos cursos de Língua Portuguesa -, conhecimentos geográficos dos locais em que as filmagens foram ambientadas, elementos históricos da região, dos personagens… bem como toda uma infinidade de outras possibilidades.

Adolf Hitler, em traje de gala, passa em revista a guarda de honra, em Berlim. / FSP-Mais!-21.07.96

A lista de filmes que poderia indicar também é “infinita”, mas vou me limitar a uma única indicação: o documentário Arquitetura da destruição (Suécia, 1989). Primeiro, por tratar-se de um documentário, gênero importante para quem pretende debruçar-se sobre as características de uma determina época ou lugar. Segundo, pela incrível qualidade da estrutura narrativa do filme. Sem falar da importância do tema abordado. O diretor, Peter Cohen, traçou um perfil da trajetória de Hitler e suas relações com a arte. O filme é inspirador para aqueles que desejam estudar o nazismo e suas implicações. Se o filme motivar pesquisas iconográficas, leituras e reflexões pessoais, você estará aprendendo a saber ver um filme.


Qual a relevância do café na História do Brasil?
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Você sabia que apesar do Brasil ser o maior produtor mundial de café, a origem dessa planta não é americana? O café brasileiro atualmente está presente em mais de 120 países do mundo, foram 35 milhões de sacas exportadas na última safra, gerando uma receita de 5,3 bilhões de dólares para o país segundo o Cecafe (Conselho dos Exportadores de Café). A produção desse vegetal de origem africana começou no período colonial, ele foi determinante no processo de formação do Estado nacional brasileiro após a independência de Portugal e moldou a economia do Brasil por mais de um século.

A chegada das primeiras mudas de café em nosso território é bastante controversa. Originário da Etiópia, trazido para a América por holandeses e franceses, durante muito tempo acreditou-se que Francisco de Melo Palheta, um funcionário militar a serviço da coroa portuguesa, teria introduzido as primeiras mudas de café. A esposa do governador da Guiana Francesa, Madame D’Orvillier, teria cedido as primeiras espécies que foram introduzidas no Pará em 1727. Francisco de Melo é retratado em alguns relatos como um galanteador que teria sido agraciado com sementes de café como um presente de uma dama francesa. Essa visão romântica da introdução do café no Brasil foi idealizada ao longo do século XIX e XX, acabou ganhando algumas versões mais sedutoras que combinavam com a imagem da bebida inebriante e revigorante que ganhou o mundo. Contudo, desde o século XVII, o café já era cultivado em algumas regiões do Maranhão, conforme atestam alguns inventários da coroa portuguesa.

Após a Independência, especialmente nas décadas de 1840 e 1850, a cafeicultura sustentou a formação do Estado brasileiro, pois os recursos advindos da exportação de café serviram para organizar o exército e as estruturas fundamentais do território recém separado de Portugal. Durante o Primeiro Reinado (1822-1831) e o Período Regencial (1831-1840) a economia brasileira estava fragilizada, os custos de guerras e da construção de um poder centralizado consumiam vultosos recursos que o Estado não tinha a sua disposição. Foi somente com a ascensão da cafeicultura que o Império do Brasil passou a dispor de arrecadação suficiente para custear o exército que reprimiu as revoltas populares e separatistas que ameaçavam a unidade nacional. D. Pedro II, apoiado pelas elites cafeicultoras do Sudeste, conseguiu governar por quase meio século o país; durante o Segundo Reinado (1840-1889) o café tornou-se símbolo da riqueza nacional e foi celebrado mundo afora nos pavilhões das Exposições Mundiais organizadas nos países desenvolvidos. Em resumo, se não fosse o crescimento mundial do consumo de café no século XIX, provavelmente o Brasil teria se fragmentado em diversos territórios e o modelo de Estado centralizado no Rio de Janeiro teria fracassado.

A mesma elite cafeicultora do Sudeste que sustentou a formação do Império monárquico no século XIX tomou o poder em 1889 e instaurou no Brasil um Estado republicano ainda calcado em uma economia agroexportadora. As oligarquias de São Paulo e Minas Gerais controlaram os rumos da política e da economia nacionais até 1930. Se por um lado o café trouxe estabilidade no século anterior, a insistência no modelo agrário exportador – e ainda por cima escravocrata até 1888 – moldou uma economia com dificuldades de se desenvolver internamente. A concentração de renda e de poder no Sudeste agravou as disparidades regionais do país gerando conflitos intraoligárquicos e ter toda economia calcada em uma única cadeia produtiva era um ponto de fragilidade, que deixava o país à mercê dos mercados internacionais e da volatilidade do preço de uma única commodity. A vulnerabilidade do modelo econômico sustentado pela cafeicultura ficou exposta com a Crise de 1929 que derrubou não só os preços no mercado internacional como também as estruturas políticas que sustentavam a República do Café com Leite. Contudo, Getúlio Vargas, que tomou o poder em 1930, não abandonou por completo as receitas geradas pelo café para reconstruir a economia nacional durante toda uma década; de certa forma, o processo de industrialização brasileiro utilizou o capital e a infraestrutura oriundas da cafeicultura.

Fazendo um balanço final, percebemos que por mais de um século os rumos do Brasil estiveram diretamente atrelados aos caminhos percorridos pela cafeicultura. De maneira complexa, com altos e baixos, prós e contras o café ajudou a forjar o país. O modelo de Estado nacional centralizado foi auxiliado pelas rendas do café, essas mesmas receitas que mantiveram a unidade nacional, organizaram as estruturas burocráticas e administrativas, contribuíram para o processo de industrialização e de formação da infraestrutura que ainda servem de base para a sustentação da economia especialmente do Sudeste do país. As exportações nacionais movimentam atualmente algo em torno de 60 bilhões de dólares e quase 10% dessa movimentação está ligada ao setor cafeeiro, ou seja, a diversificação econômica que ganhou corpo com Getúlio Vargas a partir da década de 1930, diminuiu a dependência do país em relação ao café, mas seu peso e importância continuam revigorantes.

Aliás, um cafézinho é muito bom, mas sozinho não dá a necessária sustância para enfrentar a batida do dia a dia.

Bom estudo!


Entenda a Escravidão Moderna e seus conceitos
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O ser humano é por natureza um ser gregário. Sem o grupo, o indivíduo não sobrevive. A partir do núcleo familiar, a organização de comunidades tribais viabilizou, ao longo de milhares de anos, o desenvolvimento de relações sociais e técnicas de produção que viriam a constituir as bases do que se convencionou chamar de civilização. O domínio do cultivo da terra e também do fogo, as técnicas dos metais e das armas de guerra levaram grupos étnicos a confrontos por disputas pelos territórios férteis e pelas águas e alimentos abundantes. Desse ponto às rivalidades entre as tribos, a humanidade caminhou para a prática da escravização dos vencidos pelos vencedores.

Na Antiguidade, povos assírios, egípcios, babilônicos, hebreus, gregos e romanos ergueram impérios baseados no braço escravo de milhares de trabalhadores. Sem distinção de cor, gênero ou crenças religiosas, os escravos e escravas eram usados nas mais variadas funções: nos campos, minas e nas cidades, no comércio, artesanato e serviços inclusive policiais e militares. Alguns desfrutavam de poucas regalias: poder juntar valores para comprar sua liberdade; mas a maioria sofria as mais degradantes condições de vida, até mesmo a morte.

A evolução das relações de produção viria a gerar outras formas de dominação entre classes e estamentos sociais. Observe-se, por exemplo, a diferenciação estabelecida nas relações homem-homem e homem-natureza entre escravos, servos e os operários dos nossos tempos. Enquanto os servos medievais eram donos dos meios de produção que utilizavam (como a terra e suas ferramentas), os operários nas fábricas de hoje têm apenas a propriedade de sua força de trabalho. Já os escravos são os próprios meios de produção. O escravo não é dono nem do próprio corpo, é uma mercadoria negociada entre traficantes e senhores.

Escravos na Era Moderna

Mesmo com o desenvolvimento de outras formas de organização social, como o feudalismo na Europa e os modos de produção das civilizações pré-colombianas nas Américas, a escravidão jamais deixou de ser praticada em várias partes do mundo. Quando os portugueses e espanhóis se lançaram às navegações desafiando o Oceano Atlântico, a humanidade ingressava no que viria a ser a chamada Era Moderna. Ao desembarcarem nas costas da África, observaram o costume enraizado da escravização de povos negros por outros negros para o comércio com árabes que os empregavam em seus domínios ou os revendiam para o Oriente, as chamadas Índias.

A partir de então, na montagem do sistema colonial que se espalhou por todo o planeta, o mercantilismo europeu fez do tráfico negreiro um dos pilares da construção de um modo de produção posteriormente rotulado capitalista. A conquista e exploração das Américas impôs formas variadas de escravidão. As colônias de Espanha, por seu lado, adotaram a Mita e as Encomiendas. A primeira, antigo costume do Império Inca, impunha o trabalho compulsório em obras públicas, nas minas e nos campos, enquanto os encomenderos espanhóis exploravam os indígenas com a obrigação de lhes “ensinar” a cultura e a religião cristã. O peso maior, em termos continentais, restou, no entanto, para a chamada escravidão negra adotada nas três Américas.

Como se lia num dito popular corrente pelo Brasil português nos séculos coloniais, “sem açúcar, não há Brasil; sem a escravidão, não há açúcar; sem Angola, não há escravos”. A integração de Europa, América e África no sistema atlântico articulava a produção de elementos primários tropicais nas terras brasileiras, que tem sua comercialização nos mercados europeus e o fornecimento de milhões de africanos escravizados pelo tráfico organizado durante os séculos XVI a XIX. Calcula-se que tenham entrado no Brasil 50 mil escravos negros durante o século XVI, 560 mil no XVII, 1 400 000 no XVIII e 2 milhões no XIX. Isso corresponderia a cerca de 40% do total entrado nas Américas naquele período. Estudos sobre a escravidão moderna nos fornecem, ainda, dados como:

Regiões de desembarque de escravos oriundos da África:

  Fonte: banco de dados coordenado pelo professor David Eltis, da Universidade Emory

A estrutura social básica que se desenvolveu no Brasil colonial era movida por escravos indígenas, os chamados “negros da terra”, e principalmente por negros africanos. Sobre esses trabalhadores forçados recaíam todos os tipos de trabalhos pesados. Cabe a pergunta: por que os colonizadores lusitanos optaram pela escravidão e, particularmente, pelos negros como força motriz da economia nas regiões de polo econômico, como o Nordeste açucareiro e as regiões mineradoras do século XVIII?

Não havia em Portugal um contingente de trabalhadores assalariados suficientemente disponível para a empreitada da colonização das terras americanas. Além disso, não era condizente com a visão mercantilista de exploração da colônia o envio desses trabalhadores, necessários na economia da metrópole. De imediato, os altos lucros do tráfico de escravos representavam muito mais os interesses da Coroa e de seus aliados empresários da importação de africanos para a ilhas atlânticas e, posteriormente para o Brasil. Quanto aos indígenas nativos, embora tenham sido escravizados nas regiões pobres, como São Paulo e na costa norte, constituíam uma opção menos adequada aos interesses lusos seja pelo desconhecimento das práticas agrícolas, seja pela resistência mais eficaz em território conhecido que ofereciam. Vale lembrar que os africanos eram “peças” bastante caras para os compradores da colônia. Desse modo, nas áreas pobres não exportadoras, os nativos compuseram o corpo principal da mão de obra. Some-se a isso, ainda, a atuação dos missionários jesuítas junto à Coroa portuguesa, no sentido da proibição formal da escravização dos índios. Era de fundamental importância para a Companhia de Jesus a catequese dos povos indígenas em cumprimento de sua “missão salvadora e civilizatória” e no interesse na mão de obra servil nas economias das missões pelo Brasil afora.

Visões sobre a escravidão e suas heranças 

Assim se ergueu uma sociedade patriarcal, rigidamente estratificada, com uma elite dominante aristocratizada composta dos grandes senhores de terras e de escravos e da grande quantidade de escravos que moviam a estrutura produtiva em todos os níveis. Homens livres, assalariados ou autônomos, como padres, funcionários burocratas, militares, artesãos e mascates compunham um grupo intermediário diminuto e subalterno à classe dominante.

Conservadora, autoritária e violenta, essa sociedade consolidou uma mentalidade marcada pelo envilecimento do trabalho braçal, pela segregação, discriminação e fortes preconceitos raciais e sociais. A tudo os escravos buscaram reagir como lhes era possível. As fugas dos engenhos, suicídios, abortos, revoltas, a formação de quilombos (aldeamentos), e mesmo manifestações religiosas temidas pelos senhores brancos caracterizaram formas de resistência contra a escravidão.

Em todos setores de atuação, na agricultura, no comércio e transportes, no artesanato e mesmo como escravos de ganho (cativos que exerciam atividades autônomas ou para terceiros e rendiam tributos aos senhores), os africanos deixaram sua marca na formação do povo brasileiro. As múltiplas culturas negras para cá transladadas influenciaram os costumes – como a sexualidade – e valores da sociedade, as artes – música e dança – e a culinária, as crenças religiosas, etc. Com toda a discriminação que procura desvalorizar a importância africana em nosso meio social, coube o reconhecimento do peso dessa presença realçado, sobretudo, nas obras de Gilberto Freyre (Casa Grande & Senzala), Sérgio Buarque de Hollanda (Raízes do Brasil), Darcy Ribeiro (O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil) e outros.

No século XXI, ganha força a articulação de movimentos negros que, a partir de experiências ensaiadas no século passado, passaram à ofensiva com ações positivas no combate à discriminação, denúncias de segregação e preconceitos, conquistas de espaços e afirmação da cultura afro-brasileira. Tal processo se desenrola em meio à insistência de setores da sociedade com mentalidade retrograda em preservar práticas escravistas, mesmo que criminalizadas em lei.  São frequentes as denúncias de trabalhadores submetidos a condições degradantes de trabalho, subjugados pela pobreza extrema, que simbolizam até hoje a sobrevivência daquela mentalidade de raízes escravocratas em setores do empresariado que se dizem modernos.

Bom estudo!

 


A Revolução Russa por outros olhares
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Dicas de Vestibular

 

O ano de 2017 marca o aniversário de 100 anos da Revolução Russa. Por conta disso, uma série de eventos e publicações estão programados para os próximos meses em todo o mundo. Paralelamente, o referido centenário traz algumas preocupações para os estudantes que estão se preparando para o ENEM e demais vestibulares: o que pode ser cobrado? como pode ser cobrado? como devo estudar o tema? O presente texto busca trazer essas respostas.

Inicialmente, quando analisado o histórico de questões sobre Revolução Russa, conseguimos observar que o assunto é cobrado com baixa frequência – de todos os grandes temas do século XX na História Geral, a Revolução Russa é a preterida entre as bancas examinadoras. O ENEM nunca abordou o tema, a FUVEST o fez pela última vez em 2000. Das universidades públicas paulistas, apenas a UNESP tem cobrado o assunto com significativa frequência – desde 2010, foram 6 questões. Já com relação a forma como as bancas abordam o tema, esta é feita de maneira bastante tradicional: questões com viés materialista, discutindo causas e consequências; as fases da revolução; e as mudanças políticas, sociais e econômicas. As questões mais complexas se limitam a abordar a Revolução Russa em seu contexto com o período do entre Guerras e comparativamente com outras revoluções, em especial a francesa de 1789.

O cenário descrito acima, poderia, isoladamente, trazer o diagnóstico de que o estudo da Revolução Russa está em uma posição de segunda importância – o que seria um completo equívoco.

O tema deve ser tratado com bastante atenção, ao menos por duas razões: (i) ele faz a ligação das teorias socialistas e dos embates ideológicos do século XIX com os acontecimentos da primeira metade do século XX; além do fato de que (ii) compreender a Revolução e seus desdobramentos é compreender, em grande medida, todos os acontecimentos do século passado, como a ascensão do Fascismo, a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria – temas que são cobrados todos os anos.

Se isso não bastasse, a Revolução Russa é daqueles temas que permite reflexões e abordagens bastante interessantes. Ao analisarmos o ENEM e os vestibulares mais concorridos do país, observamos uma tendência de questões que buscam avaliar determinadas habilidades nos candidatos, muito além da simples memorização e exposição de conceitos. Atualmente, o candidato que busca um curso concorrido em uma universidade de ponta deve estar apto a correlacionar situações concretas a conceitos teóricos, bem como inter-relacionar conceitos diversos para efetuar análises complexas. Nesse sentido, nós do Anglo trabalhamos com nossos alunos o que denominamos de HAC (Habilidades de Alta Complexidade). Vejamos um exemplo:

 

As duas imagens acima foram produzidas por importantes artistas russos em momentos históricos bastante significativos. O primeiro trata-se de um cartaz feito em meio à guerra-civil como forma de apoiar os Bolcheviques contra os Brancos – a obra é dividida em duas grandes partes, uma branca e outra preta. No lado branco há um grande triângulo vermelho, cuja ponta atravessa a divisória entre as cores e penetra no círculo branco que domina o lado preto, escapando vários estilhaços vermelhos. O segundo é um quadro produzido quarenta anos depois, no fim do regime stalinista – nele temos dois homens, um deles está morto enquanto o outro toma a bandeira vermelha em punho. As obras fazem parte, respectivamente, da arte vanguardista russa e do realismo soviético.

O início do século XX foi marcado por inúmeras transformações que se refletiram em inúmeros movimentos artísticos de vanguarda. Nesse contexto, a Rússia governada pelo Czar Nicolau II, tendo sido derrotada na Guerra Russo-Japonesa (1905) e na Primeira Guerra Mundial, e em meio a uma enorme crise, foi o cenário ideal para o surgimento de inúmeras vanguardas que contestavam a arte até então praticada – a arte do czar e da burguesia. O ambiente pré-revolucionário foi marcado por uma grande efervescência cultural, situação que se manteve até a construção do totalitarismo de Stalin. A arte moderna russa pôs a arte sobre novas bases, tal como Lênin pretendia fazer com o mundo ao criar o seu Estado socialista.

Os artistas vanguardistas na Rússia eram entusiasticamente a favor do Estado – ao menos nos primeiros anos pós-revolução. E para os Bolcheviques, apoiar as correntes artísticas radicais e progressistas era promover um novo modo de vida igualmente radical e progressista proposto pela Revolução de Outubro de 1917. Nesse contexto, temos a primeira imagem em que as formas e o estilo da arte não representacional são usados de uma maneira extremamente simbólica.

Com o desenrolar da Revolução e a progressiva construção do totalitarismo stalinista, o espaço para o diferente e para a contestação cessou. A ideologia totalitária submeteu também o campo da cultura, e a arte vanguardista deu espaço para o realismo socialista a partir da década de 1930, como demonstra a segunda imagem. Em um formato bastante distinto, nela fica expressa uma verdadeira política de Estado para a estética, que determinou tendências nas mais diversas esferas do campo da cultura – da literatura ao design de produtos.

O realismo soviético é avesso à arte subversiva, é contrário às ideologias subversivas. Comparar as duas imagens é observar, através da arte, como o projeto revolucionário de 1917 mudou de curso.

Em síntese, o bom estudante deve estar atento a fatores que vão além da simples narrativa histórica, desenvolvendo através de seus estudos habilidades complexas que o permitam, entre outras, contrastar documentos de diferentes naturezas reconhecendo a influência da subjetividade em seus registros, bem como inseri-lo dentro do seu contexto histórico.



Fontes: Pinterest/Voyager