Dicas de Vestibular

Pensando no vestibular, Copa do Mundo

Dicas de Vestibular

torcida_copa

A Copa do Mundo de seleções de futebol é um megaevento internacional realizado de quatro em quatro anos e organizado pela Federação Internacional de Futebol (FIFA) desde 1930, com uma interrupção (1938-50) em razão da Segunda Guerra Mundial. Não é simplesmente mais um campeonato mundial; é um fenômeno social, econômico e político de escala global, que toca em um sentimento íntimo de identidade que afeta muita gente. Até os mais ignorantes do futebol são convidados a dele participar, e os mais céticos quanto ao espírito nacional se deixam levar pela emoção da disputa entre as seleções dos países. No período em que ocorre o campeonato, entre junho e julho, o sentimento de identidade nacional é jogado dentro das quatro linhas, e, nesse contexto esportivo, aparecem uma série de temas que podem ser trabalhados nos vestibulares, como fusos horários, geopolítica, questão de gênero, entre outros. A Copa pode ser usada como um convite para o vestibulando pensar em questões do programa de cada disciplina. No campo das Ciências Humanas, os temas que afloram a partir do evento são inúmeros, muitos deles escaparão da nossa breve análise, mas a relação está apontada: a Copa do Mundo é um reflexo da sociedade global, podendo apresentar muitas das contradições que encontramos na política, na economia e na sociedade. Convido o leitor a pensar em alguns desses temas que podem aparecer em questões dos exames vestibulares.

A Rússia pode aparecer nos vestibulares, pois é o país sede do evento. À medida que assistimos aos jogos, a primeira questão aparente é o horário: a que horas é o jogo? No Brasil, os jogos têm acontecido no período das 9 às 17 horas, quando acaba o último jogo do dia. Que horas eram na Rússia, em quais fusos ocorreram as partidas da Copa, quantas horas de diferença temos entre o Brasil e a Rússia? Para responder a todas essas perguntas, o vestibulando deve ficar atento às seguintes informações da posição da Rússia e do Brasil: a Rússia fica a leste do Meridiano de Greenwich, enquanto o Brasil fica a oeste, portanto o Brasil está atrasado na hora em relação à Rússia;  a maioria das sede dos jogos tem o fuso horário de Moscou que é GMT +3 (três horas a mais em relação a Greenwich). Há também jogo em Kaliningrado (território no Mar Báltico) localizado no fuso GMT +2; Samara, que está no fuso GMT + 4 e na cidade de Ecaterimburgo, que fica na parte asiática da Rússia no fuso GMT +5. O Brasil tem quatro fusos (GMT -2, GMT -3, GMT -4, GMT -5) e sua hora oficial (de Brasília) no fuso GMT -3. A maioria das partidas terá 6 horas de diferença, mas pode chegar até 10 horas de diferença se contarmos a distância em fusos entre Rio Branco, no Acre, e Ecaterimburgo. O aluno não pode esquecer outro detalhe de posição de Rússia e Brasil; o primeiro se localiza totalmente no hemisfério norte, assim, é fim de primavera e começo de verão, enquanto na maior parte do território brasileiro, localizado no hemisfério sul, é inverno. Sobre a Rússia, é importante lembrar que se trata do maior país em território do mundo, com aproximadamente 17 milhões de quilômetros quadrados, e é um país euro-asiático com mais ou menos 150 milhões de pessoas. A maior parte dos jogos acontecerá na parte europeia da Rússia, e apenas a cidade asiática de Ecaterimburgo, como já foi apresentado, sediará jogos. Os montes Urais marcam o limite entre a parte europeia e asiática do país-sede. O Rio Volga, que é o grande símbolo da unidade do país, nasce no norte dos Urais e corta o país no sentido sul, desembocando no Mar Cáspio. A ferrovia Transiberiana, outro símbolo da integração nacional da Rússia, permitiu o controle de vastas regiões desocupadas nas estepes da Ásia Central.

Pensando no contexto geopolítico, do colapso da União Soviética em 1991 aos dias de hoje, alguns países apareceram no mapa e outros, é provável, nunca mais irão participar do megaevento futebolístico. Não participarão mais da Copa, a União Soviética inventora do “futebol científico” e a Iugoslávia, sempre com times bem competitivos. Na Copa da Rússia, a anfitriã é herdeira máxima da ex-URSS, e a Sérvia e a Croácia são os países que representam a força da antiga Iugoslávia. Essas transformações territoriais no Leste europeu podem ser apresentadas para o vestibulando, que precisará recorrer aos conhecimentos sobre a fragmentação da Iugoslávia, que começa em 1991 e termina com a separação de Sérvia e Montenegro em 2006 (enquanto ocorria a Copa daquele ano) e sobre o colapso da URSS no final do ano de 1991 até a anexação da Crimeia à Rússia em 2014. Vale lembrar que, um pouco antes da Copa, o presidente russo, Vladmir Putin, inaugurou uma ponte ligando diretamente a península da Crimeia à Rússia.  A Copa da Rússia é uma demonstração de expansão da influência do país-sede nas Relações Internacionais. Diferentemente da Copa do Brasil, marcada por protestos contra o governo, o megaevento tem servido para consolidar o projeto de poder de Vladmir Putin no governo da Rússia.

No campo econômico, como em todo megaevento envolvendo um grande número de nações, fica clara a oposição entre os países desenvolvidos e os países menos desenvolvidos. Os vencedores da Copa constituem uma lista seleta de países, a maior parte deles potências tradicionais e emergentes. Já levantaram a taça: o Brasil, cinco vezes campeão, a Alemanha e a Itália, quatro vezes cada uma, a Argentina e o Uruguai, duas vezes cada. França, Inglaterra e Espanha subiram ao topo uma única vez cada uma. Dos países asiáticos, a Coreia do Sul chegou pela primeira vez a uma semifinal em 2002, na Copa sediada pela própria Coreia e pelo Japão. Os países asiáticos são jovens praticantes do esporte; a liga profissional do Japão começou a ter incentivos a partir dos anos de 1990, aos poucos os países asiáticos vêm ganhando espaço no mundo do futebol. Dos países africanos, Camarões e Nigéria alcançaram os seus melhores resultados chegando às quartas-de-final do torneio em edições anteriores.

No plano geopolítico, podemos perceber, em alguns jogos, o sentimento da luta dos colonizados contra os colonizadores, rivalidades regionais e celebração de povos amigos. Nessa Copa, participarão Nigéria, Senegal, Tunísia, Egito, Marrocos e Austrália, países colonizados por Inglaterra e França, além de países latino-americanos colonizados por Portugal e Espanha, como Brasil, México, Costa Rica, Panamá, Argentina, Uruguai, Peru e Colômbia. As rivalidades regionais podem ser expressas em jogos como Portugal e Espanha ou Inglaterra e Bélgica. Já o encontro entre Brasil e Argentina sempre é alvo dos especuladores e sonhadores apaixonados. O confronto de maior rivalidade das Américas, quiçá do mundo, já não é mais uma possibilidade nesta Copa, após a eliminação da seleção argentina.  Os jogos costumam carregar sentimentos desse tipo. Questões envolvendo temáticas que comparam a estrutura econômica e social dos “países do norte” e dos “países do sul” também são muito recorrentes nos grandes exames de vestibular, logo, é recomendável voltar atenção para índices como IDH, Gine, PIB per capita, entre outros.

Um dos fatos mais marcantes desta Copa, no campo social, foi protagonizado pelas torcedoras do Irã, pois foi a primeira vez em 40 anos que essas torcedoras foram vistas em estádios de futebol. No Irã, uma lei promulgada há 40 anos proíbe as mulheres de frequentarem esses ambientes. Foi um grande passo para as iranianas, que sempre foram muito participativas na vida política e econômica do país, lutando para terem mais liberdade e demonstrando que é possível, sim, as mulheres estarem em qualquer ambiente público se assim quiserem. Entretanto, se por um lado, temos esse feito histórico para as mulheres iranianas e do mundo, o machismo que o evento carrega em quase todas as edições foi escancarado nas redes sociais por brasileiros e argentinos que publicaram vídeos expondo mulheres de outras nacionalidades ao fazerem-nas repetir palavras obscenas. Esse gesto foi denunciado por mulheres brasileiras e argentinas, que promoveram críticas contundentes nas redes e levaram à identificação dos envolvidos. A repercussão desses episódios trouxe mais uma vez à tona a questão da mulher no futebol e na vida pública. O debate sobre igualdade de gênero vem sendo apresentado para os candidatos nos principais vestibulares do país, e é, sem dúvida, uma das grandes metas a serem perseguidas por todos os países do mundial de futebol e em todo mundo.

Entre os países participantes dessa edição da Copa do Mundo, a questão de igualdade entre gênero é bem diversa; alguns países estão mais avançados que outros. Por exemplo, a Argentina legalizou o aborto alguns dias antes de começar a Copa. A Islândia é o país que apresenta a melhor representatividade política e a menor diferença social entre gêneros de todos os países participantes da Copa. Já na Arábia Saudita a diferença entre gêneros é brutal; é o país que apresenta maior desigualdade entre a renda per capita de homens e mulheres. Enquanto os homens ganham em média 75,9 mil dólares por ano, as mulheres ganham em média 19,3 mil dólares por ano. Além de outras privações associadas ao gênero, há pouco tempo as mulheres sauditas não podiam sair de casa desacompanhadas da figura masculina nem dirigir carros. Muitas dessas questões já avançaram no país, mas a desigualdade de gênero ainda é um fosso profundo na sociedade saudita. A desigualdade entre gêneros é uma temática sobre a qual o vestibulando deve reunir um repertório de dados e argumentos, pois pode aparecer nos exames como tema de redação e em questões de história, geografia e sociologia, que são as disciplinas que melhor podem oferecer ao estudante argumentos, dados, informações, para que ele desenvolva opinião crítica sobre tal assunto.

A grande novidade sobre o Brasil foi que, segundo o Datafolha, desde 1994, quando a pesquisa teve início, essa foi a primeira vez que mais da metade dos brasileiros disse estar desinteressada pela Copa do Mundo, sendo o desinteresse maior entre pessoas com renda familiar de até dois salários mínimos. As causas desse interesse podem ser múltiplas e discutíveis, mas não deixam de sinalizar um amadurecimento de uma população que foi manobrada politicamente pelo símbolo de uma seleção campeã. A relação entre o futebol e a política já foi explorada em questões de muitos vestibulares, por exemplo, na relação entre a seleção de 1970 e a propaganda da ditadura militar, ou na euforia do Plano Real e o tetracampeonato nos Estados Unidos. Talvez, uma mudança da relação da população com a seleção de futebol possa ser um novo fator na política brasileira. A simbologia do Canarinho “pistola”, mascote da seleção brasileira, reflete o sentimento de insatisfação do povo, não mais pelo futebol mal jogado, mas, sim, pela conjuntura política do país, que já extrapolou a beira do abismo faz algum tempo. O Brasil tem alguns números alarmantes. Somos o país que mais mata com armas de fogo no mundo. Nos últimos 12 anos, segundo dados do IPEA, no Atlas da Violência 2018, meio milhão de pessoas morreram assassinadas com armas de fogo no Brasil, e, na metade dos casos, as vítimas eram jovens entre 16 e 19 anos e, em 70% dos casos, eram pardas ou negras. É mais do que matou qualquer guerra civil no mesmo período. A disparidade entre o jogador e o espectador é tão profunda que a paixão pela seleção foi diminuindo a ponto de não estar mais entre as grandes prioridades de boa parte da população. A baixa identificação com os protagonistas é um dos motivos claros do desinteresse. Os jogadores, por sua vez, deixam o país muito jovens, antes de se identificarem com as torcidas dos grandes clubes do Brasil. Essas grandes transformações do comportamento da sociedade brasileira podem ser apresentadas para o candidato nos exames de vestibular; as grandes contradições costumam servir de recorte para o exame abordar questões socioeconômicas, raciais e problemas estruturais do país. Toda atenção a isso vale a pena.

Como se pode perceber, as temáticas e abordagens são muitas. A Copa do Mundo é um bom repositório de fatos e acontecimentos que podem servir de motivo para questões do vestibular. Lembrando aos candidatos às vagas das principais universidades do país, é muito importante se manterem atualizados e atentos aos principais acontecimentos. Uma leitura aguçada pode ajudar a pensar em respostas para algumas boas questões que aparecem no conteúdo programático das disciplinas; relacionar os conteúdos é outra habilidade bastante exigida nos principais exames do momento.

Bons estudos a todos e boa Copa do Mundo.